O PRIMITIVO EM MIM
Há um vazio em
mim e eu me desconheço, e é como se já não soubesse mais quem sou. Não há
conteúdo em mim e já não percebo se quer o eco daquilo que fui. E parece que
nada de novo vai acontecer e permanecerei assim, como que esquecido de mim.
Como que realmente descrente de que vivi o que ficou no passado. E na realidade
sei que nada mais sou que a somatória daquilo que um dia fui.
Já me é
indiferente dia ou noite. Não penso na morte e tudo se vai no passar das horas.
E há uma inconsistência naquilo que vivo. Parece até que nunca existi até o dia
de hoje, até este momento em que ora escrevo. E o difícil é ter que esperar que
as coisas aconteçam.
Os acontecimentos
para cada um de nós implica em nossa ação. Naquilo que executamos. Na
impossibilidade de querer qualquer coisa há o desespero precoce de não
encontrar nada de que me ocupar.
Deus escapa de
mim, eu sinto que estou distante de tudo que preencheu meus dias. E parece que
caminho de forma incerta, cada vez mais fundo nesse vazio meu. E há um medo
profundo. Um temor do nada que se anuncia.
E quero parece,
eximir-me de falar com alguém, pois falar exigiria que ressuscitasse aquilo que
está morrendo.
E falece em mim
meus registros, meus referenciais enquanto pessoa. E isso ao mesmo tempo que
parece ser bom, pois é uma novidade que nunca vivi, por outro lado compromete a
possibilidade de me reencontrar a mim. Não tenho comigo nada a que me agarrar,
só me resta o nada daquilo que se esvai. Que escoa para a morte.
E então parece um
erro querer me apegar ao que escapa de forma tão misteriosa de meu ser, como se
me torna-se um corpo sem alma, parece errôneo evitar que isso tudo se vá, pois
esse todo que se esvai é aquilo que sempre fui. Ao menos foi assim que sempre
acreditei que se dava comigo a vida. O
encadear de meus dias.
E sinto que me
ausento do mundo. Meu espírito se torna num verdadeiro fantasma que escapa de
seu abrigo que é meu corpo. E parte para outras paragens. Vai assombrar um
outro local distante de mim e por lá se exila.
Resta então eu e
esse todo que sempre fui. E sem uma vida própria, algum conteúdo enquanto
pessoa, não sei por onde seguirei.
Então fica apenas
esse absorto silêncio de mim para comigo. E acredito que não haverá um
regresso, não haverá uma continuidade.
Me despeço
então de mim mesmo, daquilo que acreditava ser eu.



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