A COMPLEXIDADE MINHA OU PORQUE SEMPRE ME FOI TÃO DIFÍCIL SER FELIZ

Meu primeiro pensamento sempre que volto no tempo e busco lá atrás nos meus primeiros anos de infância a minha memória mais remota, esbarro na figura de minha avó. Vejo-me debruçado numa bacia com água, ela – minha avó – postada a meu lado, eu contemplando um eclipse solar.
E isso não sei dizer assim de imediato se me alegra,  o que sei simplesmente é que sinto uma ausência, uma espécie de lacuna entre eu e o mundo que me rodeia. Isso no momento preciso em que esse pensamento me ocorre.
Quando criança provei o que os adultos sentenciam como: criança mimada. Ou seja, tive tudo que quis, no momento em que desejei. Era essa a prontidão de meus avós para comigo. A maneira de demonstrarem que eu era tudo que eles mais amavam na vida.
E fui embalado por anos nesse berço azul, recoberto por um véu protetor. O véu do carinho, do sublime deleite de se ver protegido, quando não socorrido e até diria impossibilitado de não ser amado.
Brindei cedo então com a felicidade, nada me faltava, a vida nada me negava. Ao contrário fui príncipe entre rei e rainha. Meu avô e minha avó eram meus soberanos, eu o herdeiro do trono.
E a vida para mim se iniciou dessa forma. Tão simples e satisfatória quanto sentar-se numa mesa de restaurante, ter o cardápio a mão e o pedido atendido. 
 Atingido meus treze anos, chegada a puberdade provei então do primeiro infortúnio que me reservava o destino. Meu pai me tirou de meu paraíso, exigiu-me em sua casa como filho seu que era, e ficou para trás meu belo e encantador berço azul, que até então me embalara. Era afinal de contas um direito seu me querer em sua casa. E, apesar das lágrimas minhas e das de meu avô, fui conduzido à casa paterna, sentenciado a só regressar à casa de meus avós para visitas eventuais.
Logo de início, nos primeiros dias em que me vi exilado da rotineira companhia de meus avós, dei um jeito de contornar a situação. Sussurrava a mim mesmo sempre que saudoso deles, em voz baixa, mas de forma que meus ouvidos atentos gravassem as palavras e me convencesse da veracidade delas: “é tudo uma ilusão, façamos de conta que eles estão aqui conosco, a nosso lado”.
Fatalidade primeira de minha vida essa atitude infantil de criança que nem sabia a essa altura já brincava com fogo. O lúdico e o imaginário preenchiam então grande parte de meus dias, e embora me envolvesse em brincadeiras com meus irmãos e outros garotos, teci de forma desapercebida uma teia que me seria mais tarde por minha própria armadilha, começando cedo na vida a escapulir do mundo real pelas portas da fantasia.
E os dias assim foram se passando e quando menos me dei conta já atingia eu a plena juventude. Não posso deixar de abrir um parênteses, e por justiça, deixar claro que meus pais em nada foram relapsos em proporcionar-me o que de bom e melhor lhes foi possível, havendo assim como que uma continuidade de ser bem servido na vida pelo cardápio a mim apresentado.
Atingida a maioridade logo comecei a querer dispor de forma deliberada da liberdade que implica para um jovem trabalhar, ganhar seu dinheiro e poder desfrutar dele exclusivamente em seu próprio benefício.
E então adentrei os dias de juventude de forma aventureira, e fui embalado pelos ímpetos da adolescência por longo tempo, adentrando mesmo a fase adulta.
E provei do amor, da paixão, do sexo, da cerveja  e do primeiro cigarro. E tudo sempre de forma facilitada. Quis conhecer e aventurar-me em drogas e por longa data permiti que meus instintos me conduzissem.
Principiava aí a continuidade do que lá no passado remoto, na infância iniciou-se, embrenhei-me no imaginário do mundo e de mim. E sem dar-me conta arrisquei e me expus mesmo a perdição, enveredava mais uma vez pela fuga da realidade, do mundo que em seu contorno já esférico,  delimita a cada um numa esfera própria de atuação. A minha atuação comprometeu-se num pacto que na certa, sem dar-me conta realizei comigo próprio, um pacto de optar pelo fantástico, pelo devaneio, pelo distanciar-me de tudo que não implicasse em prazer.
E não se conclua daí que me vi livre da dor, do mais árduo e perverso sofrimento que possa estar sujeito qualquer indivíduo.  Não, de forma alguma, só o que fiz foi estender sobre mim mesmo um véu – não como aquele que me revestiu o berço azul da infância – mas sim um, que ocultava de mim mesmo minha perdição e dos demais, minha natureza impoluta e abominavelmente corrupta de enfrentar e lidar com os reveses que a vida reserva a cada um de nós.
Dava-se então comigo algo que chamaria machucar-me a mim mesmo por negligência desapercebida.  Tornei-me displicente para com meus próprios valores e princípios e sem querer admitir para mim e para os outros tornei-me mesmo imoral. Por um tempo prolongado permaneci numa atitude de covardia. Agia de forma ilícita sempre buscando meios lícitos de justificar-me. E isso porque estabeleci de modo inquestionável que sofrera fatalidades que a vida me arrebatou oportunidades e que o destinou reservou-me pedras de tropeço e nada mais que isso.
Inteligente que sempre fui, soube bem como engendrar um mecanismo que me eximia do julgamento alheio e, pior ainda, de meu próprio julgamento. De meus atos imorais não me acusava a consciência, nem me apercebi também do canalha que me tornara. Sim eu realmente me despira de caráter e de forma imoral consentia no erro. O meu erro e o erro também do outro.
E tudo isso implicou em exaustivo processo de auto destruição de aniquilamento  de mim. E por isso mesmo nunca soube o que era ser feliz.
Sempre colocava lá, para além de meu alcance, para distante de mim num horizonte inatingível, o que me traria de regresso até mesmo a felicidade que desfrutei no berço azul da infância. Justificava meus atos como alguém que faz justiça com suas próprias mãos, eu simplesmente me vingava dos infortúnios da vida, dando vazão a uma bestialidade que se fazia passar muitas vezes despercebida a meus olhos.
De forma breve e sucinta, sem escapulir-me nada ou deixar aberta alguma lacuna, afirmo sem alongar-me: a felicidade está lá, eu a vejo e comtemplo e sei que me pertence. Para isso teria mesmo que despojar-me da complexidade minha, de minha natureza impoluta e arrogante, e atender a simplicidade que me acena e eu refuto. E refuto porque ser simples me é por pobreza de alma, por estupidez mental.
Então eis que aqui, nessa narrativa fica a tentativa minha de uma trégua para com a vida. E repousar e descansar e ser feliz como qualquer um o é. Bastaria para isso renunciar ao meu calvário, ao gólgota que me fascina, depor a cruz que eu mesmo em peso me imponho e consentir que a vida a mim aconteça como acontece para todos. E admitir corajosamente que quem ama, ama porque na verdade é capaz da renuncia maior; da verdadeira santidade de adorar. Adorar a tudo, a todos ao todo, mas esquecido completamente de si. Então aí seria eu feliz.


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