O ERMITÃO DO MAR
Debatem-se as ondas
no mar bravio e minha nave arrisca-se despedaçar-se. Luto numa batalha árdua
contra a tempestade e avista meus olhos nada mais que a vastidão das águas a
querer engolfar-me.
Cai a noite e com
ela se abranda o mar. Cansado da batalha travada meu corpo busca aconchego em
meu barco que flutua. O céu límpido e estrelado me alegra o coração e me sinto
enternecido e os nos olhos me abate um semissono. Sinto a brisa marítima no
rosto, bem como os doces lábios de alguma ninfa de relance tocam os meus, e
adormeço.
Ermitão que me fiz
no mar, meus sentimentos estão sempre voltados para o insondável oceano que me
cerca. E no hábito de nenhuma voz ouvir, por vezes quero do canto de uma sereia,
doce ilusão minha.
Tem os dias em
que ancoro nos portos para me abastecer de mantimentos e aproveito para tomar
um bom trago de vinho e ter em meus braços alguma donzela que vende barato no
porto seus prazeres.
Mas o mar me
espera e minha paixão por ele não permite que me demore. E logo estou eu de
volta ao meu barco. E nisso conduzo o deslizar de meus dias por sobre o vasto
mar que tanto me fascina.
Da solidão que
carrego no peito, bem como da ausência em mim de querer de alguém a meu lado,
guardo somente a recordação de um amor longínquo. Uma paixão que me doeu tão
fundo no peito que me conduziu a tornar minha vida numa nau errante mar afora.
E rezo para que
no decorrer de meus dias por sobre as águas me torne mais fácil a cada dia
sentir menor o latejar desta paixão.
Paixão esta que
tão devastadora me foi como as ondas em furor quando se debatem contra minha
nau como se a fossem esfacelar.
Mas passa-se o
tempo, vão-se as luas, e sinto que envelheço... Um velho ancião habituado ao
mar e suas águas infindas, e a paixão que outrora ardeu feito chama ora se
atenua e quase se apaga, açoitada pelas águas das ondas de um mar bravio.



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