“DELÍRIOS INFERNAIS”


Libertai-me ó deus dos desgraçados. Minha alma sôfrega e cansada se abate dentro de mim. Indago qual foi meu delito cometido que me obriga a pagar com tão duras penas nesta vida, o querer de um corpo que se achegue a mim e me aqueça. Tenho vagado sob o consigno dos condenados, daqueles que já nenhuma esperança refrigera o fogo ardente de seu inferno.
Minha vida se esvai rumo à morte e escapa de mim o deleite dos que são livres. Qual não é minha dor que só me faz querer da maldição? Desconheço do bem maior. O amor que enlaça os corpos e ata uma vida a outra vida esse eu desconheço. Lá atrás no tempo, quando ainda na força da juventude me acometeu a paixão, já aí faleceu em mim qualquer esperança, qualquer possibilidade de amar.
E percorro o pretérito e busco algum vislumbre de futuro e me encontro à deriva em uma nau mal assombrada. Quem dera pudesse lançar-me na profundeza das águas pelas quais tenho vagado na certeza de que a morte me acolheria em seus braços.
Sou enlouquecido há tanto tempo que já me habituei à desgraça da pesada corrente que insiste em atar a vida meu ser.
Os monstros marinhos lanham minha carne e me refaço a cada dia através de meu próprio poder de subsistir aos ferimentos. E a vida me é por tormento perpétuo, porque haveria eu então de temer a eternidade sob o julgo do diabo após morte?   Sei bem já o que é a dor de arder em chamas eternas.
De modo algum sei que não estou livre do temor dessas águas profundas e infinitas nas quais tenho vagado. A morte há muito é minha grande amiga. Não venço uma braçada neste oceano meu desconhecido, sem sentir a dor cruel que para mim tem sido o viver.
Cansado procuro como deter-me antes da hora última de partir para o além-túmulo, a possibilidade de ver-me livre da sandice e alcançar uma réstia de lucidez.
E de modo algum desconheço o meu algoz, ele vive a espreitar-me todo dia. Sonda-me e assombra-me. Ameaça-me constante com seu chicote açoitar.
E errante troto eu vida a fora, sentindo arder em meus lombos as chagas expostas de verdadeira tortura.
 Sei bem comigo que findarei meus dias envoltos em delírios completamente bestiais. E purifico-me de forma inexplicável na própria loucura que me é por cárcere. 
E vago errante feito um fantasma vadio. Trilho por caminhos de horror a tenebrosa existência. E de modo errante encadeio os dias de meu viver.
E sem dar-me conta caio em devaneios e chego então a crer que há salvação para mim.
Pobre homem que sou que até hoje enveredei pelas sendas da loucura e busco convencer-me que sou da mesma natureza daqueles que caminham iluminados pela luz de sua sanidade.
“Que crime cometi”? Pergunto eu a mim mesmo, a não ser o de devanear em busca de saciar os desejos da carne. E se dou rédea solta a meus instintos não sinto em mim real condenação por assim agir.
Chego a deduzir que certamente impera em mim um destemor do desconhecido, pois minhas alucinações me convencem que não sou de todo impuro. Oculto em meus delírios infernais,  grande parcela de amor há em mim.
E é devido a este amor de certa forma virginal que consigo sustentar-me e prossigo na esperança de que alcançarei ainda que seja no meu último suspiro, o teu perdão, oh! Deus dos desgraçados.

 





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