HERMAGOM: O ROMANCE - CONTINUAÇÃO




Dia após dia foram se passando e a primavera chegou ao fim. As flores, encanto da estação, foram aos poucos desaparecendo e adentrou o verão.



CAPÍTULO V



        Na região onde se encontravam ambos os reinados: Hermagom e Egodam, as estações do ano eram bem definidas, sendo que o inverno era rigoroso e o verão quente, porém  devido as matas que predominavam na região, se fazia mais brando. O outono e a primavera eram estações amenas.
        Certo dia Anelis encontrava-se com Sidrak num descampado um pouco distante do castelo de Hermagom. Deitados na relva contemplavam o céu azulado, com um sol radiante e nuvens brancas como algodão.
        Já fazia tempo que permaneciam os dois ali, transpirando ambos, o aroma do amor. Envolvidos pela paixão que desabrochava em flor no coração de ambos os jovens.
        - Bem, melhor irmos agora – disse Sidrack – Não quero começar a ser indagado por ninguém no palácio, a cerca de minhas ausências. Principalmente por meu pai.
       Levantou-se e estendeu a mão a Anelis, que o fitou meio entristecida, porém pondo-se de pé abraçou-o e beijou-o com ardor.
        - Vá indo adiante, vou ficar mais um pouco, andar a derredor e ver se encontro umas amoras que possa colher e levar para casa.
        - Está bem - Disse o príncipe e partiu não sem antes roubar da jovem mais um beijo.
        Anelis então começou a caminhar pelas proximidades, procurando pés de amora que pudesse colher, colocar na cesta que trouxera com frutas de casa para seu amado. Sua mãe haveria de ficar contente e fazer das amoras deliciosa geléia.

       Fazia já algum tempo que a moça caminhava, afastara-se já da relva onde se encontrava e adentrava a mata.
       Conhecia bem o local e não havia risco de perder-se. Pegou o caminho de uma trilha ladeada de árvores e prosseguiu adiante.
       Não chegou a caminhar uns cem metros, quando avistou vindo a seu encontro no caminho um cavaleiro em sua armadura e espada na cintura. Este veio ao seu encontro, e  descendo da montaria, inclinou-se e saudou a dama.
      Aneliz então interpelou o rapaz:
      - De onde vens? Nunca o vi por aqui. Na certa não és morador em Hermagon. Deves vir de outro lugar, bem como  cavalgas  já há bom tempo. Percebo por teu cansaço.
      - Realmente não sou destas paragens gentil dama. Sabes me indicar qual caminho devo pegar para chegar até o castelo do território de Hermagon?
      - Perfeitamente que sim. Sou uma plebéia do reino.  Trabalho no momento inclusive na cozinha do castelo.
      -  Ora, pois se me conceder a gentileza de montar comigo em meu cavalo e conduzir-me até lá, ficarei imensamente agradecido.
      Aneliz consentiu e rumaram para o castelo do rei Medrak. Não estavam distantes, em poucos minutos apeavam no portal de entrada.
      O cavaleiro desconhecido então pediu a gentil dama que anunciasse ao rei que havia um cavaleiro ali, de outras terras que desejava falar-lhe com urgência.
      Ainda era cedo, no máximo dez horas da manhã. Aneliz então se dirigiu a um dos soldados que guardavam a entrada do castelo real. E ordenou a este passar ao rei o comunicado da chegada do cavaleiro.
     O rei Medrak prontamente se dispôs a receber o cavaleiro desconhecido e, sentado em seu trono deu ordens para que este adentrasse e fosse levado perante ele na sala do trono.
     O soldado inclinou-se perante o rei de Hermagom e fez sua saudação:



      - Eu saúdo ao rei Medrack, senhor das terras de Hermagom. Suplico alguns momentos de sua atenção para que me ouças em meu relato. Garanto que será de grande proveito ao rei, ouvir-me no que tenho a dizer-lhe.
     -  Estou pronto a ouvi-lo, jovem infante. Diz-me primeiro de onde vens e com que objetivo. Daí então providenciarei para que sejas servido, deves estar na certa faminto além de cansado. Tuas feições denunciam isto. Portanto apresenta-te:
     - Meu nome é Lion e venho do território de Egodam. Cavalguei boa parte da noite para poder chegar aqui ainda cedo e, retornar ainda hoje antes do anoitecer.
     Sou um humilde cavaleiro, ex-servo de meu rei Beliel. Que de modo tão terrível foi abatido, tendo sua cabeça decepada em seu trono.
       Medrack se levantou do trono com o semblante transtornado com notícia tão monstruosa.
       - Como se deu tal desastre Lion? – Meu filho Meríades esteve prisioneiro nas terras de Egodam. Regressou livre não faz muito tempo. Esta notícia deveras muito me surpreende. Não via com bons olhos o rei de Egodam, confesso, porém isto é deveras muito trágico. Há poucos meses atrás meio reino encontrava-se devastado, e recorri ao auxílio do rei Beliel.
      Ele deveras revelou-se um verdadeiro tirano quanto ao contrato que pretendíamos atar caso aceita-se seu auxílio. Bem como, antes mesmo que pronunciasse qualquer resposta, enviou para minhas terras suprimentos e presentes caros. O que muito me constrangeu. Tomei mesmo por despojo de guerra a oferta vinda de sua parte.
     O cavaleiro Lion ouviu o rei sem pronunciar palavra. Em seguida acrescentou:
      - Rei Medrack, soberano do território de Hermagom, de antemão aviso-te, que não me tomes por vil traidor. Porém estou aqui, para narra-lhe o que ora se passa em Egodam.
       Com o falecimento do rei Beliel, ascenderá ao trono o príncipe Meríades seu único herdeiro. Eis que este pronunciou-se ao povo, participando seu propósito de vingança pela morte do pai.
       Foi lido para toda a população um Edito de convocação de um levante em guerra contra Hermagom. Pois daqui partiu aquele que é o responsável pela já dita, trágica morte do rei Beliel. Neste momento, além dos soldados de guerra, todo homem com idade inferior a sessenta anos no reino, recebe diariamente treinamento para um ataque a vossas terras digníssimo rei. Em verdade reconheço toda a tirania com que reinava Beliel, bem como o Edito declara que seu reino será avisado quando do ataque. No entanto, arrisquei-me vir até Hermagon, pois considero injusto que não tenhas a oportunidade de preparar-te contra o levante que há de vir da parte de do território de Egolam.
       
    





...No entanto, arrisquei-me vir até Hermagon, pois considero injusto que não tenhas a oportunidade de preparar-te contra o levante que há de vir da parte do território de Egolam.
        O rei Medrak, sentado em seu trono, apoiou a testa numa das mãos e por instantes se fez silêncio entre ele e Lion, o cavaleiro.
       Porém não demorou muito para que Medrak sentenciasse o que pretendia fazer frente a situação perturbadora que se encontrava:
      - Nobre cavaleiro, não há palavras que possam expressar minha gratidão por teu ato não só de bravura mas  também digno de verdadeira justiça ao vir até meu reino, inteirar-me do que se passa. Sei que partes antes do anoitecer como disseste para que não sintam tua falta em Egodam.
       Esteja certo de que me seus préstimos me foram de grande. Espero que os deuses permitam que ainda venhamos a ter nossos caminhos cruzados, por um benfazejo desígnio.
       Garanto-te que providenciarei para que ainda hoje inicie-se uma investigação sobre o assassino de vosso Rei, bem como preparei o povo de Hermagom, para a guerra que virá por sobre nós.
       Agora, permita-me que lhe sagre e abençoe com tua espada, antes de partir de meu reino.
       Lion desembainhou sua espada e passou-a as mãos de Medrack, que o sagrou e abençoou.
       Em seguida após reverenciar o senhor das terras de Hermagom, virou-se rumo à saída do castelo real, atrelou-se a sua montaria e partiu.




PARTE IV


CAPÍTULO I



      Após a partida do cavaleiro Lion vindo de Egodam, o rei Medrak permaneceu por longo tempo sentado em seu trono.
      Sentia-se desorientado, todo o relato de Lion, o cavaleiro, passava por sua mente e, parecia ao rei um terrível pesadelo. Como se deram esses acontecimentos sem que ele tivesse conhecimento? Como seu sobrinho havia conseguido regressar a salvo de Egodam? Ele se quer se perguntara isso, tamanha foi sua alegria ao tê-lo de volta. E quem seria o assassino de Beliel? Quem tivera a coragem de abater o terrível tirano de modo tão trágico? Quem em Hermagom seria esse celerado? Afinal, o caráter corrupto e facínora daquele rei, não justificava uma morte desta natureza.
      Todas essas indagações provocavam profunda inquietude no espírito do Medrack. Quando menos esperou ouviu alguém chamá-lo:
       - Medrak!
       - Estou aqui? – respondeu.
       - Ora não o vejo desde a refeição da manhã. – Era Susana que vinha ter com o irmão – Mas, o que se passa? Esta abatido e pareces cansado.
       Neste instante, adentra pela janela esquerda da sala real, a qual estava com as cortinas abertas, um corvo, que voando passa por sobre a cabeça de Susana, chegando quase a enroscar-se em seus cabelos.
      Ela solta um grito de pavor. Medrak levanta-se do trono, tange a ave agourenta para fora e acolhe a irmã nos braços.
      Esta quase desmaiou de susto.
      Medrack confortou-a e disse:
      - Isto não foi nada. Não passa de uma ave desorientada que adentrou o salão real.
     Susana consente em silêncio, e com os olhos marejados de lágrimas sussurra:
      - O corvo parecia querer atacar-me propositalmente. Quase enrosca-se em meus cabelos.
      - Nisso uma serva adentra a sala avisando que o almoço já pode ser servido.
     Medrak e Susana dirigem-se ao salão de refeições.
     Sentam-se: o rei a cabeceira da mesa, ela a sua direita.
     Chega Duran que toma lugar a direita da esposa.
      O rei então indaga:
      - Ora esta onde está Sidrack?
      Uma das servas responde:
      - Estará aqui em minutos, chegou da campo há pouco tempo.
     - Bem sirva-nos, então. –Disse Medrack ainda com ar soturno e semblante esmorecido.
     Duran deu-se conta de algo havia de errado pelas feições do rei. Perguntou-se o que poderia ser. Quem sabe tenha descoberto algo da trama que houve em Egolam. Sentiu-se amedrontado. Ainda assim, com voz segura se dirigiu ao rei:
     - O rei Medarck parece-me preocupado e abatido? Aconteceu alguma coisa séria?
     Medrack balançou a cabeça de forma negativa e disse:
     - Não amanheci sentindo-me bem. – Porém estou certo de que um repouso após a refeição me regenerará as forças.
      - Assim espero! – Exclamou Susana. Duran consentiu com a cabeça.
      Medrack acabava de se sentar a mesa. Alegre e jovial, saudou a todos, acrescentanto:
      - Nosso estou mesmo com fome. Comeria esta coxa de cabrito assado sozinho. – Referindo-se à carne assada no centro da mesa.
      Ele foi o único a não comentar sobre o abatimento, o estado taciturno em que se encontrava o pai. Na certa inebriado pelo encanto de seu amor jovial. Pelo passeio com Aneliz pela manhã. Não apercebeu-se da tristeza que seu pai não conseguia ocultar.
      Além do que Medrak ainda se encontrava naquela idade em que muitas vezes não se dá conta com a mudança das emoções de uma pessoa por seu semblante... Bem mas, seja lá por qual motivo for foi o único que nada comentou. E, terminando o almoço, pediu licença e retirou-se.
  

      










                                                         [...Presságio...]

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