UM ROMANCE
“HERMAGON
A ESTÓRIA DE UM ANTIGO REINADO”
OU
“ A ESTÓRIA DO ANTIGO REINADO DE
HERMAGOM”
JOSE IVAN DE ALENCAR
INTRODUÇÃO
Num tempo remoto há milhares de anos atrás, existiu
sobre a terra um reinado. Um reinado sem precedentes históricos envolto não só em lendas mas também de uma grandiosidade
de natureza imperial.
E eram soberanos nesse
império, senhores rei e príncipe, Medrak e seu filho Sidrak. O rei Medrak era
conhecido por sua natureza de homem dotado de justiça e misericórdia por seus
súditos. Dentre eles destacava-se Duran, que ascendera ao cargo de Primeiro
Ministro casando-se com Susana, irmã do rei e tornando-se portanto seu cunhado.
Enviuvou o rei Medrak cedo e seu filho
Sidrak embora sempre sob seus olhos, foi educado tia e por seu marido Duran.
Sobre as terras de Hermagons abateu-se
então uma era de calamidade. Hermagon, domínio
e império do rei Medrak e seus súditos, na qual o príncipe Sidrak fora criado e já
alcançava seus dezoito anos. Havia miséria, doença e peste a se alastrar pelo
território, e os súditos do rei em
grande parte padeciam.
Fazia-se necessário pois ir em busca de aliança
com outros territórios. Isto de forma que o reinado não viesse a sucumbir.
Hermagon era banhada pelo mar na costa
oeste, onde era do conhecimento do rei Medrak haver terras inexploradas. Sabia
inclusive que o acesso a essas terras era possível tanto por terra quanto pelo
mar.
Decidiu
então o rei enviar uma fragata por mar, bem como uma infantaria por terra em
busca de explorar a região desconhecida. Deveria encontrar-se, fragata e infantaria,
alcançadas as terras inexploradas a norte do território de Hermagon.
O príncipe Sidrack seguiria com a frota
marítima como representante oficial de seu pai, o rei Medrak. O Primeiro
Ministro Duran deu ordem a seus chefes de guerra que estivessem preparados
para o combate, se necessário fosse, com
o objetivo de evitar que a calamidade que se abatera sobre o povo não os viesse a
extingui-los de uma vez.
Sendo assim, começa essa estória sob o
signo da batalha. Onde o destino dos homens e da humanidade se definem.
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Apesar de suas riquezas e poder econômico;
pois a terra de Hermagom sempre fora embargada no comércio e reconhecida por
suas especiarias, era necessário agora
que se fosse em busca de novas fronteiras, novos territórios. As terras
do rei Medrak, senhor de Hermagon, pareciam comprometidas na sua fertilidade
pereciam amaldiçoadas. Os campos já não produziam como outrora e os próprios
mantimentos para sobrevivência encontravam-se comprometidos.
Em seu posto de príncipe Sidrak fora
instruído nas artes marciais de sua terra natal. Era nobre guerreiro, destemido
e ágil no escudo e na lança.
Antes da partida cerimoniais foram
realizados, e os magos das terras de Hermagom previram glórias e vitórias
quanto ao embargo da frota. O rei embora confiante, temia deixar partir seu
herdeiro por direito do trono. Por outro lado confiava no filho e sabia que
este era um jovem preparado para negociar em seu nome, bem como estava sob a
proteção de seus melhores guerreiros.
E assim partiram de Hermagom próximo
ao
solstício de
verão época propícia segundo os costumes para investir-se numa jornada
como aquela. E as velas das embarcações ergueram-se, e o braço misterioso do
destino norteou as fragatas de rumo à bravata a ser travada para a salvação do
império de Medrak o rei.
Na partida, o mar estava em fúria, e as
embarcações debateram-se contra as ondas, mas isso não atemorizou os valentes
homens que, convictos do êxito de sua jornada investiram mar adentro.
Foram dias e dias em águas violentas a
debaterem-se contra as embarcações e então veio a calmaria. O mar tornou-se
brando e as fragatas singraram as águas com tranquilidade. Passou-se quinze dias sem que se avistassem
terras. Foi quando no vigésimo terceiro dia soou o alarme. Um dos homens
divisou no horizonte ao longe o que seria um possível local onde aportar.
O príncipe Sidrak de imediato soltou um
falcão, que adestrado por ele na certa alcançaria Hermagom e seria o sinal para
seu pai, de que haviam alcançado o objetivo primeiro. Encontrar alguma terra a
vista.
Atracaram as naus na terra desconhecida. O
príncipe orientou os homens para que havendo habitantes no local fossem em
primeira ordem amistosos. Em caso de ameaça haveria confronto bélico.
Desembarcaram e após acamparem aguardaram o
encontro com a infantaria que deixara Hermagom por terra, na mesma data em que
o príncipe partiu com a frota por mar.
Não passou-se muitos dias para que os
cavaleiros dessem de encontro com o acampamento onde os aguardavam o príncipe
Medrak, seu tio Duran e os demais homens.
Após isso foi realizada a seleção pelo príncipe, dos homens
que deveriam acompanhá-lo na exploração do território desconhecido por eles.
Foram longos dias de
exploração. Acampavam dia após dia o príncipe e seus homens ao anoitecer e
persistiam em cavalgada durante o dia. Decorridos três meses de jornada
avistaram do alto de uma colina o que seria um possível princípio de território
habitado. Terra fértil, vegetação farta e, graças aos deuses, regatos onde
podiam reabastecer-se de água.
Acamparam então na região, e o
príncipe Sidrak em acordo
com seu tio Duran, e os principais
homens encarregados pelo êxito da jornada, principiaram a traçar um plano estratégico de
exploração do novo território encontrado.
Não imaginavam com que poderiam se deparar
naquela expedição. Hermagom e seus
habitantes jamais haviam ultrapassado
os limites de suas terras.
Durante cerca de três séculos jamais fora
Hermagom de forma alguma ameaçada por outros povos, e portanto a paz sempre
reinou soberana, a garantir aos reis precedentes e seu povo o transcorrer
tranquilo do tempo. De forma inequívoca,
por longa data, até subir ao trono Medrak como soberano,
permaneceram os habitantes de Hermagom sob os auspícios da fartura e da
riqueza.
Agora era necessário que travassem alianças
com algum possível reinado, e Sidrak sabia em seu íntimo que poderia encontrar
tanto amigos dispostos a ajudá-los, como inimigos que veriam neles ameaça a
seus domínios.
CAPÍTULO II
Passados vários dias durante os quais Sidrak e seu tio
Duran juntos arquitetaram rotas para esquadrinhar a região, bem como planos
estratégicos em caso de alguma possível batalha, os valentes guerreiros
descansados e providos de água e mantimentos deram início então à jornada de
exploração do território descoberto.
Os cavaleiros avançaram por densa floresta,
tendo à frente sempre Sidrak e seu tio
Duran.
Ao anoitecer desmontavam e repousavam sob as
árvores, quase sempre sob um céu
estrelado e um luar prateado a clarear a escuridão da noite. Sidrak então certa
noite teve um sonho. Verdadeiro pesadelo onde via a esposa de seu tio Duran, a
ainda bela e jovem Susana, à quem muito amava, sendo arremessada de um terrível
abismo.
Despertou desnorteado e assombrado ao mesmo tempo, e
agarrando-se ao manto sobre o qual repousava, a angústia lhe subiu ao coração. E o temor de
que algo de abominável pudesse vir a acontecer apossou-se dele.
Não conciliou mais o sono
e estendido por sobre o manto viu aos poucos chegar o claro do dia. Um após
outro todos os guerreiros, inclusive seu tio Duran despertaram e depois de uma
frugal refeição, da qual o príncipe recusou-se a participar, deram continuidade
à marcha.
Sidrak sentia-se abatido pela noite mal
dormida, porém nem por isso deixava de trotar seu corcel no ritmo cadenciado
dos demais. Vez por
outra era como se a cena tétrica do sonho atravessasse a mira de seu olhar. Ao
entardecer sentia-se esgotado e já fugia-lhe as forças. Deu ordens então que
parassem a marcha e acampassem numa clareira próxima. Ao que seu tio Duran, o
esposo da irmã de seu pai, não se opôs.
Mal
desceu do cavalo Sidrak recostou-se numa pedra, bebeu alguns goles de água e
deu ordens de que armassem uma tenda. Seu tio então se achegou a ele e indagou porque paravam antes do pôr-do-sol,
ao que este respondeu que era melhor aproveitarem a ravina para descansarem um
pouco mais, pois afinal não sabiam até quando persistiria aquela marcha infindável.
Recordou
Sidrak então contemplando o crepúsculo seus dias felizes junto do pai e sua tia Susana, as pessoas a quem mais amava
na vida. E, mais uma vez sentiu o coração oprimido, temendo o significado
daquele fatídico pesadelo. Sentia-o como verdadeiro presságio. Tinha respeito
pelo tio. A tia porém era como se fosse a própria mãe de quem pouco ou quase
nenhuma recordação tinha.
A
noite chegou e, apesar de haver lua nuvens densas cruzavam os céus, e a escuridão então
predominava.
Esfriou um pouco mais que nos
dias anteriores e Sidrak deu graças, pois
aconchegado em sua tenda adormeceu num sono profundo e só despertou quando seu
pajem de armas veio chamá-lo para a refeição da manhã.
Sentia-se
revigorado e mais confiante no êxito de sua expedição.
Reuniu
os homens e juntamente com seu tio Duran quando o sol despontava no horizonte deram
início a mais um dia rumo a um destino ainda desconhecido.
CAPÍTULO III
Marchou
a tropa por toda a manhã parando somente a certa altura quando avistaram
uma elevação à frente.
Uma colina que os
conduziria a uma posição elevada do
território em que se encontravam.
Sidrak
avaliou a situação e selecionou alguns
homens para que atrelados a seus cavalos procurassem subir ao alto da colina e
regressando notificassem o que avistassem de lá. Enquanto isso o restante da
expedição esperaria ao sopé do monte.
Ao
regressarem, apearam com ar entusiasta e comunicaram a seu príncipe suas
descobertas.
Haviam
avistado ao longe o que poderia ser um possível reino, com edificações e
fortalezas ao redor. Segundo seus cálculos se acampassem ali pelo resto do dia
e partissem ao amanhecer, antes mesmo do sol nascer alcançariam o que
possivelmente seria os domínios de algum reinado por eles desconhecido.
Sidrak analisou a situação e concordando com
seus mensageiros, ordenou que acampassem aos pés da colina pelo resto do dia.
Recolheu-se em sua tenda e cauteloso, decidiu usar de sensatez. Pegou de um
pergaminho e redigiu em palavras cordiais algo que poderia ser apresentado
perante o possível senhor daquele território por eles descoberto.
Rezava
basicamente no seguinte conteúdo do documento redigido pelo príncipe Sidrak:
Sidrak,
Príncipe
do território Hermagom em nome de seu pai o rei Medrak, declara amistosamente a intenção de travar relações com os senhores e governantes das
terras a quem esta missiva se destina. Tendo
em vista a necessidade de alcançar auxílio perante calamidades que se abateram
sobre o território de Hermagom....,
buscamos
aliança pacífica, bem como estamos dispostos a retribuir qualquer auxílio que
seja, em forma de tributos e possível intercâmbio de mercadorias.
Nossas terras perecem em escassez e não sabemos por quanto tempo podemos
sobreviver às adversidades que sobre
os domínios do
reinado de Medrak rei, Senhor meu pai, se abateram. Senhor e rei do qual sou eu representante.
Saúdo-vos,
e que a paz se estabeleça entre nós,
Assina Sidrak, príncipe de Hermagom.
Lacrou o documento e selou com as
inscrições que simbolizavam o reino de seu pai Medrak. Em seguida refletiu consigo: “Que os deuses
nos sejam propícios, e que não haja dificuldade na compreensão desta missiva.
Que não se oponham a uma possível aliança de paz”.
Comunicou
então seu tio Duran quanto à mensagem redigida e disse que delegasse três
homens para levar o documento até os domínios da terra avistada. Fazendo que chegasse às mãos daquele que fosse
por rei ou governante do território.
Assim o fez Duran. Selecionou
três homens, os quais instruiu que cumprissem as ordens do príncipe, sem deixar
de alertá-los no entanto que
participassem àquele que recebesse a mensagem que o primeiro ministro era por
tutor do príncipe de Hermagon e, sendo
assim, toda e qualquer decisão estaria em primeiro lugar sob o poder dele
Duran, e toda e qualquer decisão a ser
tomada se encontrava em primeiro lugar sob seu poder. O príncipe Sidrak não
passava de mero representante de um reinado que caminhava para a ruína.
Garantindo-se pela fidelidade dos três, de antemão adiantou-lhes modesta
quantia em dobrões de ouro com a efígie do rei Medrak.
Partiram assim instruídos os três espias de
Duran rumo às fortalezas que em menos de meio dia de caminhada na certa
alcançariam.
Duran então foi até a tenda do príncipe e
participou-lhe que suas ordens foram cumpridas.
Na verdade o tio de Sidrak jamais
conseguiu suportar a idéia de que vindo Medrak
a falecer, seu jovem sobrinho passaria a ser senhor do trono de
Hermagom. Pensando mesmo em contestar perante o cunhado o direito à soberania.
Mas, sabedor da resistência que encontraria por parte da esposa Susana, irmã do rei, engolia a seco seu orgulho
ferido e vivia a remoer pensamentos, de
como haveria de conseguir ascender ao trono.
Chegou
mesmo a pensar em insurreição para o
futuro, ainda que para isso tivesse que dar cabo do sobrinho e da
esposa. Mulheres belas é o que não lhe faltaria em Hermagon, que poderiam perfeitamente
bem substituir Susana como rainha e mulher. Bem como amargava ainda o fato de
que esta já se aproximava dos quarenta anos e até aquela data não lhe concedera
um herdeiro. E recalcava em seu íntimo a revolta contra a esposa, que desde
cedo dedicou carinho a um rapaz que para ele não passava de um bastardo real.
Ele
sim, que conhecera a mãe de Sidrak e sempre servira a casa real com dedicação,
era o indicado a assumir o trono na falta, ou falecimento do rei, não aquele
garoto mal saído das fraldas.
E
encontrava agora a oportunidade, desde que usasse de astúcia,
de conquistar o tão almejado posto. E
seu primeiro ardil já estava lançado.
CAPÍTULO IV
Os mensageiros de Duram não tardaram em
alcançar as muralhas que encerravam o castelo do território por eles
descoberto. Guardas em atalaia protegiam as proximidades deste, e os espias de
Duran aproximsndo-se do portão da muralha guardado pelos soldados, apearam de
seus cavalos e em seguida saudaram os sentinelas.
Garek, homem de confiança de Duran era aquele
que dentre os três, trazia consigo a
missiva do príncipe Sidrak, bem como estava incumbido de participar ao senhor
daqueles domínios as mensagens como fora instruído por Duran.
Adiantou-se
e declarando paz aos guardas disse ser mensageiro de um reinado distante. O
reinado de Medrak, senhor e rei do território de Hermagon. Um dos sentinelas
aproximou-se e disse que o acompanhasse, bem como os outros dois cavaleiros.
E
assim os três mensageiros adentraram as muralhas de Egodam, um território para
eles desconhecido, onde tronava como senhor e rei Beliel, pai de Meríades, que
como Sidrak de Hermagom não conhecera a mãe, pois Beliel o rei envenenara a
própria esposa tomado pela paixão por uma sacerdotisa de seu reino.
Diverso
do prudente e sábio rei de Hermagon, Beliel conduzia sues súditos sob o jugo de
altas taxas de impostos, vivendo estes praticamente na condição de escravos, em
verdadeira servidão.
Aqueles
que não podiam pagar os impostos exigidos pelo rei eram destituídos de todo e
qualquer bem e obrigados ao trabalho forçado no garimpo de ouro e pedras
preciosas, em abundância naquelas regiões onde se encontrava os domínios do
território de Egodam.
Os
guardas conduziram Garek até o interior do palácio onde lhes foram indicados os
aposentos nos quais deveriam aguardar para ter audiência com o rei. Garek
impressionou-se ao contemplar a suntuosidade do castelo real. Deduziu logo que haviam alcançado seus
objetivos. Sem dúvida alguma aquele era um território de riqueza e fartura
suficientes não só para o senhor que tronava no local, bem como para um
possível pacto com outro reinado.
Era
manhã quando os três mensageiros chegaram, e próximo ao meio dia, foram
recebidos por Beliel e seu filho o príncipe Meríades no salão principal do
palácio. Um ostentoso trono servia de espaldar para o rei, que com olhar não só
arrogante, mas também afrontoso mirou Garek, um jovem cavaleiro de terras
estranhas que adentrara seus domínios.
Porém
era Garek um jovem confiante e destemido e portanto não deixou-se intimidar por
aquele olhar astuto, ao contrário; fixou o seu nos do soberano e com devida reverência merecida a um rei,
saudou em nome do rei Medrak e das terras de Hermagom o rei de Egodam.
Estabelecido esse primeiro
contato, o rei Beliel aparentemente dando-se por satisfeito diante da
reverência de Garek, dispensou a presença de seu filho Meríades para que
travasse conversa a sós com o mensageiro. Ao que o filho atendeu prontamente.
Mas sua curiosidade o impediu de ir muito longe e ficou a alguns metros de
distância do trono, por trás de uma coluna, de onde pode espreitar e ouvir as
palavras do rei e do mensageiro desconhecido.
Ambos conversaram longamente, principiando de
forma impessoal o assunto da missiva apresentada ao rei, tornando-se a conversa
cada vez mais cordial a medida em que o rei Beliel tomou conhecimento da tutela
do príncipe que conduzia a expedição pelo primeiro ministro Duran, seu tio.
Beliel então chamou um de seus escribas e
indicou a Garek o caminho de regresso a seus aposentos. Sendo este conduzido
por servos e alertado pelo rei que, ainda naquele dia haveria de regressar
junto a seu senhor Duran, com uma declaração de acordo, bem como os termos
deste, entre os dois reinados. O reinado de Hermagom e o de Egodam.
Ditou Beliel a seu escriba as seguinte
mensagem:
“Ao Primeiro Ministro Duran,
representante do Rei Medrak,
Senhor das terras de Hermagom.
Honrado encontra-se o rei Beliel, senhor das
terras de Egodam, em travar aliança com o rei Medrak, senhor de Hermagom e seus
representantes: o Primeiro Ministro Duran e o pupilo o príncipe Sidrak, filho
do rei. Por bons auspícios vos seja o pacto travado entre nós, e respeitadas
também sejam as cláusulas deste acordo ora firmado.
I
– Tudo que for exportado como mercadoria do território de Egodam em socorro a
Hermagon: seja alimento, seja prata ou ouro, armas se necessário; implicará
numa tributação de 25% além da ameia do que for cedido, quando do ato do
pagamento.
II – O pagamento poderá
ser realizado sem prazo determinado,e da forma como aprouver ao rei e seu povo.
Serão aceito escravos como forma de tributo
III
– Em acordo com o Primeiro Ministro Duran, fica retido em nosso território o
Príncipe Sidrak, que receberá todas as honras dignas de um príncipe, até ser
saldado ao menos a ameia daquilo que for transportado das terras de Egodam para
o território de Hermagom.
IV – Saldada a ameia, o príncipe regressará ao reinado de seu pai.
V – Não haverá aliança entre os dois reinados
e nenhum outro rei ou representante de qualquer território até que seja saldada
a dívida de 75% em tributos.
VI – Não haverá revogação do trato, a partir
do momento que for concluído e aceito o pacto entre os dois reinados, dentro
das citadas cláusulas.
Saúda Beliel,
Senhor de Egodam
à MedraK e seus súditos
das
terras de Hermagom”.
Redigido o contrato,
Beliel dispensou o escriba e chamou por seu
filho Meríades, afim de participá-lo do
acordo com o novo reinado que se unia ao
deles em pacto.
Meríades,
rapaz de estatura elevada, porte altivo, e belas feições, não ocultava em nada na aparência ter puxado ao pai.
Possuía farta cabeleira loura e olhos esverdeados, bem como tez rosada e perfil
bem
talhado. Conhecendo-se Beliel e, sabendo
Meríades seu filho, logo deduzia-se a provável beleza da mãe que o gerara. Uma
vez que o pai, obeso e atarracado, moreno e de cabelos escuros, senhor de uma barba
cerrada que denegria seu semblante, sem
ocultar os olhos escuros ameaçadores, em nada se assemelhava ao filho.
Meríades
atendeu prontamente ao chamado do pai, sem deixar transparecer que novidade
alguma lhe transmitia este, pois até o conteúdo da missiva ouvira ele do local
onde ocultara-se.
Respondeu
simplesmente ao rei, que fosse feito tudo de acordo com sua vontade e propôs
que convocassem a rainha, sua madrasta, pois já passava a hora da refeição do
meio dia. Ao que Beliel atendeu com prontidão, dando ordem aos servos que
servissem à mesa e chamassem a rainha.
Na
manhã seguinte Garek apresentou-se ao rei Beliel e recebeu deste o documento
que deveria encaminhar ao Primeiro Ministro Duran. Os três mensageiros regressaram e assim que
Duran tomou conhecimento do conteúdo da missiva, pulsou mais acelerado seu
coração. Parecia que o destino encaminhava tudo de forma à que seus planos
maquiavélicos se realizassem. Chamou o príncipe Sidrak e lhe disse de forma
natural ser necessário que seguisse rumo a Egodam, o território enfim
descoberto, onde deveria permanecer até que as negociações com o rei Medrak,
seu pai, fossem concluídas
Sidrak não questionou as
ordens de seu tio, e tratou de preparar-se para no dia seguinte partir rumo as
terras de Egodam, onde ficaria sob a guarda do rei Beliel.
CAPÍTULO V
Como foi dito, Hermagon
fora um território de abundância e fartura no passado. E o príncipe Sidrak
desfrutou de uma infância feliz, conservando em sua memória os dias de glória
de sua terra. Bem como a felicidade que desfrutou seu pai Medrak com sua mãe, a
qual perdeu cedo.
Sidrak
herdara do pai o caráter nobre que é por brio e honra de um rei que, em
justiça, serve a seus súditos.
Já
o mesmo não se poderia ser dito de Beliel . No entanto, havia esperanças para
as terras de Egodam em Meríades seu filho.
E
por alívio e consolo de Sidrak logo após ser apresentado ao rei Beliel, foi ter
conhecido seu filho Meríades. Sidrak não
era em nada ingênuo, e sondou logo nas sutilezas e amabilidades do rei, algum interesse não declarado em sua
pessoa. Algum subterfúgio em tê-lo sob sua guarda, por trás das muralhas de seu
castelo.
Uma
vez retido em Egodam, Sidrak não deixou-se abater. Ao contrário, viu como
missão sua permanecer naquele local, que ora não lhe era nem hostil, nem
hospitaleiro. No entanto, logo nos primeiros dias uma grande solidão abateu-se
sobre o jovem príncipe.
Fora
determinado por Beliel, que Sidrak estava terminantemente
proibido de transitar pelas dependências
do castelo real, ou deste se retirar, sem a permissão prévia do rei. Sidrak
passava seus dias num confortável aposento, porém sem liberdade alguma de
ultrapassar a porta se assim o desejasse. Servos de Beliel lhe serviam as
refeições, preparavam seu banho, e sentinelas guardavam a porta, com o objetivo
de que fossem cumpridas as ordens do rei.
E
assim arrastaram-se dias e dias, sem que Sidrak tivesse contato com viva alma
que trocasse com ele qualquer palavra.
Certa
manhã, inesperadamente, ouviu batidas na porta, logo após saírem os criados que
lhe serviram a primeira refeição. Apressou-se em abri-la. Não reconheceu logo a
primeira vista o filho do rei, que saudou-o e pediu permissão para adentrar
seus aposentos.
Meríades
esperara um momento oportuno para travar amizade com o príncipe de terras
distantes das suas. Bem como viu por bem,
participar a este a conversa que ouvira
entre seu pai e o mensageiro Garek, enviado por Duran, tio do príncipe.
O
rei Beliel passeava com sua esposa, a sacerdotiza Ília, com a qual casara-se
recentemente, após o envenenamento de sua ex-esposa, como foi dito, mediante a
um preparo providenciado pela própria Ília.
Isso
deu oportunidade ao príncipe Meríades para ir ter com Sidrak, sem temer que o
rei desse por conta de sua ausência nos demais recintos do palácio.
O
castelo onde tronava Beliel, fora mantido por séculos, reinado após reinado
preservado em luxo e beleza, e nunca antes subira ao trono tirano tal qual o
rei atual. Jardins belos cercavam o castelo e as proximidades de suas muralhas,
e a servidão do povo encontrava-se oculta nas terras férteis e de riquezas
insondáveis, aos arredores dos castelo, para além de suas muralhas. A miséria
existente naquele reinado não se mesclava com a exuberância da construção do
palácio real. E qualquer que permanecesse no interior das dependências deste,
jamais sondaria a extrema pobreza, dor e sofrimento oculto nos domínios daquele
poderoso e também antigo império.
Meríades
logo cedo, deu-se conta da extrema desigualdade entre ele e os súditos de seu
pai, e não porque fosse de natureza débil, ou mesmo insensível, deixou de falar
do assunto com sei pai. Mas, antes sim, pelo medo ou verdadeiro terror, que o
maquiavélico tirano despertava inclusive sobre o próprio filho e sua mãe, em
seus esbravejos de ira, sempre que contrariado em alguma coisa, por mínima que
fosse.
Guardava
por exemplo Meríades na memória, o dia em que, sendo iniciado no templo, onde
conheceu aquele que seria seu mentor dentre os sacerdotes. Fora presenteado com
uma lâmpada de azeite e um ramo de trigo amarrado em fita vermelha, entregue a
ele pelo mestre. Saído do templo, correu a apresentar excitado o presente que
lhe fora ofertado à mãe ao rei seu pai. Beliel não só atirou longe a lâmpada e
o ramo trigo, como ainda esbofeteou o filho, alertando-o em voz trovejante:
“não lhe enviei ao templo para que regressasse com mimos tolos... enfeites para
seus aposentos!”
A
partir deste dia, conheceu Meríades qual a real natureza de seu
pai. Só não era sabedor da fatalidade maior ocorrida a pouco tempo com a perda
da mãe. Não cogitava a possibilidade de seu envenenamento, muito menos ter seu
pai qualquer envolviemento na morte repentina da mãe.
Deixemos
porém no momento a tragédia que envolve a pessoa do jovem príncipe Meríades, e
regressemos ao ponto onde o deixamos a travar conhecimento com o também jovem
Sidrak, príncipe de Hermagom.
CAPÍTULO VI
Sidrak
ouviu surpreso a narrativa de Meríades e tremeu de ódio por seu tio Duran, que
atraiçoava a ele e a seu pai. Agora podia entender a razão de sua permanência
em Egodam. Era a maneira que seu tio encontrara de representá-lo perante o rei,
seu pai, e tramar contra este.
Por
um lapso de tempo regressou em sua memória o sonho que tivera com sua tia
Susana, à qual como se sabe lhe dedicava amor maternal. Não participou, e no
momento não julgava conveniente fazê-lo, o que lhe passou pela mente a
Meríades; o temor de que Duran pudesse atentar contra a vida da própria esposa
Susana.
Sidrak
sabia consigo que se Duran rompesse os laços com Susana e conseguisse atentar
contra o rei, seria um caminho aberto para sua ascensão ao trono.
Nada
disso participou ele ao príncipe que se postava a sua frente, e permanecendo em
silêncio, tudo tornou-se claro a seus olhos. Sabia agora que seu tio Duran
aliara-se ao terrível Beliel, que tão má impressão lhe causara.
Indagou
somente do príncipe se havia uma forma de este ajudá-lo a ver-se livre do
cárcere em que se encontrava. Se seria possível ter ajuda para ultrapassar as
muralhas do palácio de seu pai Beliel, e regressar às terras de Hermagom, de
forma que pudesse participar ao rei o que Meríades ouvira da conversa entre
Garek e o rei.
Meríades
disse que era praticamente impossível passar por todos os guardas e atingir os
portões de saída dos domínios do castelo sem que sem que seu pai tomasse
conhecimento.
Havia
no entanto, uma saída a leste do palácio, que embora sob guarda, era sempre
negligenciada por estes, por ir dar num abismo. Verdadeiro precipício, onde
ninguém jamais ousou por os pés. Gelou a alma de Sidrak, e virando as costas
para o príncipe, cobriu o rosto com as mãos, debruçau-se de joelhos em seu
leito.
Os
dois príncipes permaneceram juntos por um longo tempo, o silêncio a reinar
entre ambos. Um princípio de amizade cingiu aquele encontro, e travou-se
cumplicidade entre ambos.
Sidrak
temeia por seu pai, e pelo destino de seu reinado. Meríades encontrava no novo
amigo, uma possibilidade de aliviar sua dor e sofrimento, pelo padecimento sob
as mãos de um pai déspota e tirano, não só com seu povo mas também com o
próprio filho.
Temendo
que o rei desse por sua ausência, e suspeitasse de alguma coisa, tocou Meríades
o ombro de Sidrak, que pondo-se de pé, entedeu toda a situação e trocando ambos
reverência, retirou-se Merídes, prometendo regressar.
Mal
cerrou o príncipe atrás de si as portas dos aposentos de Sidrak, ouviu a voz de seu pai que bradava
alto seu nome pelos corredores do palácio. Tratou de ir ao encontro dele, levando
no coração já não mais amargura, bem como ódio intenso pelo pai devido sua
união com aquela mulher, que embora sacerdotisa, ele não sabia porque motivo
ocupou tão cedo o posto de sua recém falecida mãe.
Recordava
Meríades a maneira misteriosa e inesperada
com que sua mãe contraíra uma febre repentina, que a acometeu por vários dias;
sem que os entendidos no tratamento de doenças e os mestres em poções pudessem
desvendar o que se abatera sobre ela. Viu a mãe definhar e falecer em breve
espaço de tempo. Bem como em pouco tempo assistia as cerimônias do casamento de
seu pai e a atual a madrasta.
Seu
pai quando do falecimento de sua mãe, demonstrou-se condoído, pranteando mesmo
a morte da esposa. Porém num espaço de meses comunicava que seu reinado não poderia
ficar sem uma rainha que estivesse a seu lado no trono. E para espanto de
Meríades Beliel lhe participou a união com a sacerdotisa, que ocupava um posto
no reinado, não condizente em ascender ao trono. Isso por tratar-se de alguém,
que até então, permanecera confinada nos âmbitos da religião.
Constiuida em Egodam por magos,
sacerdotes e sacerdotizas que conduziam cultos de fertilidade aos deuses, os
quais guardavam, protegiam e derramavam suas bênçãos sobre o próspero e
afortunado território. Característica curiosa da religião era o fato de que
sacerdotes e sacerdotisas permaneciam virgens, até que se fizesse necessário,
quando da época auspícia à colheita, a realização de um ritual sacramentado
desde as origens do povo, que era o casamento e geração de um filho ou filha,
entre sacerdote e sacerdotisa, para que se conservasse a linhagem daqueles que
nasciam assim sob os consígnios da releigião, e consequentemente serviam no
templo.
CAPÍTULO VII
Meríades
possuía um mentor dentre os religiosos do reinado de seu pai. Dedicando a este
verdadeira veneração, pelas palavras sábias que desde cedo ouvira de sua boca.
Além dos mestres escribas, fora esse sacerdote o principal responsável por sua
educação de príncipe.
Já
era de certa idade quando assumiu o cargo de mentor na educação de Meríades,
incutindo no jovem príncipe ideiais de altruísmo e equidade, os quais dizia ele
haviam de algum dia conduzí-lo a vir a tornar-se um soberano, que aboliria o
jugo sob o qual vivia o povo oprimido pelo rei seu pai. Meríades lembrava-se
das primeiraas palavras de seu mentor: “Não deve um filho voltar contra seu
próprio pai a espada da sua ira, ainda que este dê motivos para isso. Os deuses
traçam os caminhos dos homens, e o sábio sabe aguardar o seu momento de ter as
rédeas de seu próprio destino nas mãos. Afim de cumprir aquilo à que foi
predestinado”.
E
o caráter íntegro e de mansidão de Meríades vinha daquele sábio homem que
acompanhou sua educação praticamente desde o berço.
Quando
da morte da mãe do príncipe este ouviu de seu mentor: “Assim como os deuses
determinam nossos progenitores. De forma misteriosa traçam os rumos que
seguimos em nossas vidas, pelos laços que nos unem a eles. Cabe a cada um
reverenciar seus antepassados independentemente dos atributos de seus atos,
qualidades ou defeitos. Sua mãe foi uma rainha que se condoia com a natureza
tirânica de seu pai, mas permaneceu sempre ao lado deste, unicamente suplicando
aos deuses que amanssassem seu coração. Que lhe quebrantassem a cerviz. Fez sua
parte, cumpriu sua missão e agora partiu. Não guarde revolta no seu coração”.
Meríades
tinha grande apreço por seu mentor, amor esse que excedia qualquer sentimento
que abrigasse no coração pelo pai.
Ocorreu
então a Meríades aconselhar-se com seu velho e sábio mentor, sobre a questão
que envolvia o príncipe Sidrak e a negociação de seu pai com o reinado de
Hermagom.
Foi
até o templo em busca do idoso sacerdote, que ascendera ao cargo de comando dos
rituais sagrados pelos sacerdotes do templo, tão avançado em anos que era.
Já
era entardecer, havia tempo que fizera a refeição do meio dia na companhia do
rei e da atual rainha. Ao chegar no templo, seu mestre repousava. Um outro
sacerdote foi avisá-lo da presença do príncipe no templo.
Meríades
aguardava inquieto, depositava todas suas esperanças nas possíveis palavras que
estava prestes a ouvir de seu mentor. Ele na certa saberia não só orientá-lo,
como lhe diria o que fazer. Como proceder.
Passado
alguns instantes o idoso sacerdote veio ao encontro do jovem príncipe que o
recebeu com um abraço. O velho não deixou transparecer ao jovem um príncipio de
preocupação, um mau presságio, que aquela visita repentina do príncipe lhe
causava.
Conduziu
este a um local isolado no templo onde pudessem conversar sem interrupções.
Em
poucas palavras inteirou o príncipe a seu mestre dos últimos acontecimentos no
reino. Segredou a este tudo que ouvira da parte de seu pai e do mensageiro
Garek das terras de Hermagom.
O
sacerdote pareceu num primeiro momento surpreso com os acontecimentos recentes,
mas logo disse a Meríades que conhecendo a natureza rebelde e gananciosa de seu
pai, não se surpreendia com nada do que acabara de ouvir. Indagou do príncipe
qual era a posição de sua madrasta quanto ao que se passava, pois na certa seu
pai Beliel participara a ela. Meríades disse simplesmente que não costumava
trocar palavra com a madrasta, mas estava certo de que esta compactuava com o
rei na negociação injusta e escabrosa do rei Medrak.
O
sacerdote manteve-se em silêncio, e as rugas em sua testa denunciavam a
Meríades, que o conhecia bem, que este ponderava com seriedade da questão.
Disse ele ao príncipe que o que havia de terrível envolvido na questão consistia
na detenção do príncipe filho do citado rei, atrás das muralhas de Egodam.
Julgava indubitável haver interesses em jogo que ambos desconheciam, naquela
atitude do rei para com o príncipe Sidrak. “Aquele que possui muita riqueza e
fartura”, acrescentou o sábio homem, “em geral são mais ávidos em querer
acumular mais ouro e prata a seus tesouros. E os meios pelos quais pode fazer
uso para alcançar isso podem ser desastrosos. Quando não de ordem insensata,
corrupta e violenta”.
“A
guerra”, concluiu o sábio, “a guerra é o que pode advir de mais catastrófico em
negociações estabelecidas desta guerra”.
Com
isso, achegou-se aos dois, mestre e discípulo, outro sacerdote ainda jovem, que
participou ao mentor de Meríades a necessidade da presença deste junto aos
demais sacerdotes no templo. Abraçaram-se mais uma vez os dois, o sacerdote
prometeu que não haveria de abandonar a questão trazida a ele por Meríades.
CAPITULO VIII
Enquanto
isso em Hermagon, o rei Medrak há dias debatia-se pesaroso, não só com a
ausência de seu filho, retido num território desconhecido. Bem como o contrato
de transações proposto pelo rei que se dispôs a estender a mão a ele e seu
reinado, e que foi pelo seu primeiro ministro de confiança Duran.
Revoltou-se
o rei com Duran com o fato de este ter atendido à cláusula concernente ao
príncipe, sem sequer avê-lo consultado antes. Duran declarara simplesmente ao
rei que não viu outra saída a não ser atender as exigências do rei Beliel, que
se mostrou solicito, porém intransigente na negociação.
Susana
passava a maior parte do tempo buscando distraí-lo e incentivando-o a ser
cauteloso em suas decisões, pois também sentia o coração oprimido com a atitude
do desconhecido rei para com seu sobrinho e filho de criação. Alertou também ao
rei quanto a proposta injusta de auxílio mediante a tão altas taxas e impostos
estabelecidos por este no contrato. Na verdade, Susana já atinava em seu íntimo
na possibilidade de atentado por parte deste rei Beliel contra o trono de
Medrak e os domínios de seu reinado.
Outra
pessoa além dos dois, e esta, mais que ninguém padecia com essa situação, era
uma moça do povo. Uma das inúmeras donzelas da então decadente terra de
Hermagon. Muito temente aos deuses, e sabedora de sua posição de simples
camponesa, apaixonara-se pelo príncipe Sidrak, numa das vezes em que carregando
água para dar de beber ao parco rebanho de ovelhas de seu pai, deu com este a
apear do cavalo e conduzi-lo ao riacho para que bebesse água.
Os
dois jovens, Aneliz, era esse seu nome, e Sidrak o príncipe, assim que cruzaram
os olhares enrrubeceram pois o amor, a paixão primeira da juventude invadiu a
alma de ambos.
Com
o regresso da frota, bem como da infantaria sob o comando do primeiro ministro
Duran sem a presença do príncipe Sidrak, alertou a todos que algo de estranho
se dera. E logo correu o boato de que o filho do rei havia sido feito
prisioneiro em terras distantes, por um rei desconhecido.
Aneliz
não podia ir ter com o rei ou mesmo com sua irmã Susana, pois Sidrak mantera em segredo até então o namoro de
ambos. Dizia ele que havia necessidade de que primeiramente Hermagon se
erguesse da calamidade que se abatera sobre todos, para só então participar a
seu pai suas intenções para com ela. Intenções certamente de casamento.
Guardava
consigo em segredo o sua devoção pelo príncipe de sua terra, e poucos beijos de
amor chegaram a trocar, quando Sidrak foi incumbido da missão determinada pelo
rei, na busca de socorro perante a calamidade que assolava o reino.
Aneliz
era órfã de mãe, assim como Sidrak e também o príncipe Meríades das terras de
Egolam. Três jovens marcados pela perda da mãe, três destinados a unirem-se no
amor e na amizade.
O
pai de Aneliz era um camponês atingido pela miséria que assolava as terras de
seu rei. Senhor que fora de plantações e rebanhos, ora encontrava-se em
situação de extrema pobreza, sugerindo sempre a sua única filha que tratasse de
conseguir um marido, pois se sentia fraco na saúde, e temia deixá-la só no
abandono, no ermo em que se tornara o território de Hermagon.
Ao invés disso Aneliz, temendo mesmo
inclusive a perda do pai, decidiu ir até o castelo do rei Medrak e,
apresentando-se à uma de suas servas, disse estar disposta a servir no castelo.
Para sua sorte, ou talvez simplesmente por uma questão providencial, havia
falecido a poucos dias uma das moças que trabalhava na cozinha do rei. Aneliz
foi portanto admitida nas dependências do castelo real, como serva e ajudante
na cozinha.
CAPÍTULO IX
Há
tempos o território de Hermagon não eram abençoado com as sazonais chuvas de
verão. O que acarretou consequentemente o empobrecimento do solo, a decadência
do povo e a infertilidade da terra.
Cultos
eram elevados às divindades da água e do fogo, e na busca de que os deuses da
fertilidade se compadecessem e enviassem bênçãos que aplacassem a calamidade se
abatera sobre o território. Mas os deuses pareciam fazer ouvidos moucos às
súplicas do rei e seu povo.
Parte
da terra ressecou-se, e a água era conseguida à custa de poucos poços
conservados por ancestrais. Outra
pequena parte do território, consistia em um pântano inóspito.
E
assim agoniza a terra de Hermagon e seus habitantes, quando da partida da
expedição rumo à Egodam. O sol permanecia a matizar a paisagem com sua luz
dourada, que quando lhe é por bem só afoguear e aquecer, assim se dá.
Para
surpresa do povo, bem como daqueles que moravam no castelo do rei, logo após o
regresso de Duram e dos cavaleiros que com ele partiram em expedição, densas
nuvens acumularam-se por sobre os céus de Hermagon, os dias passaram a
tornarem-se acinzentados e havia no ar prenuncio senão de chuva, na certa mesmo
de tempestade. Findava então o verão.
O
povo alegre acorreu em busca de grãos de cereais, pois era momento oportuno de
semear, para que caso, vindo chuvas, houvesse colheita certa na estação
vindoura.
E
assim se deu. Pelos dias restantes de verão, bem como durante o outono daquele
ano, as terras do rei Medrak verteram-se de áridas, em solo fértil e acolhedor,
para a semeadura e a sega.
O
rei e sua irmã Susana festejaram com o povo, bem como deitaram oblatas aos
deuses, de tudo aquilo que haviam conservado em celeiros pela época da
estiagem.
No
entanto os corações de ambos permaneciam angustiados. A ansiedade e apreensão
pela ausência de Sidrak, o príncipe, os atemorizava. Sabiam que após as
colheitas, com os frutos da terra, bem como com as posses do reinado de Medrak,
e o legado de seus antecessores, podiam quitar todo o auxílio que chegaria em
breve, na forma de mantimentos essencialmente, vindos de Egodam.
Porém
não tinham garantia alguma de que o rei Beliel cumpriria sua parte no trato, e
lhes devolveria o príncipe Sidrak ileso e a salvo.
Duran
e seu fie guardião Garek, viram com desprezo, e até mesmo duvidaram em seu
íntimo de que os deuses se apiedaram do povo de Hermagon. Duran endureceu mais
ainda seu coração.
Tramava
Duran contra o rei Medrak e contava com o auxílio de seu fiel servidor Garek.
Sabia, disse este a Garek, que dar cabo a vida do rei não lhe seria algo
difícil. Principalmente se pudesse contar com o auxílio de algum religioso ou
religiosa. Talvez pensasse ele em envenenamento, como ocorreu com a mão de
Merídes em Egolam, através de Ília, a sacerdotisa, quem o sabe? O certo é que
Duran não atinava ainda em como conseguir cumplicidade com algum sacerdote ou sacerdotisa
de seu reino.
Lembrou-se
então da citada ex-sacerdotisa de Egolam, esposa de Beliel, e veio-lhe um plano
em mente. Apressadamente tratou de encerrar-se em seus aposentos a fim de
redigir a seguinte missiva, endereçada ao rei Beliel e sua esposa:
Da parte de Duran,
Primeiro ministro de Hermagon,
Ao Rei Beliel e sua Rainha.
Bons
auspícios ao soberano das terras de Egolam e sua rainha. Redijo essa missiva
para para levar ao conhecimento do rei, a gratidão da parte do rei Medrak de
Hermagom e seus dúditos, pela aliança generosa travada entre os dois reinados.
Oriento
ao rei Beliel que conserve o príncipe Sidrak sob sua guarda, visto poder ser
ele por penhor entre ambos os reinados na quitação das cláusulas do contrato
estabelecido pelo próprio rei. Há ainda de minha parte interresse em que Sidrak
permaneça em Egolam, enquanto jovem solteiro que é, além de príncipe soberano
em Hermagom. Seria de bom grado entre ambos os reinos, caso o príncipe
viesse a tomar por esposa alguma donzela
da corte de Egolam, pertuarmo-nos em aliança, quem sabe mesmo, unindo-nos em
fortificação futura de nossos territórios.
Ouso
ainda, solicitar junto ao rei que, estando a seu alcance, envie-nos um
sacerdote ou sacerdotisa de seu reinado, para ter com os sacerdotes de
Hermagon, e compactuar-mo-nos também, no sentido de clamarmos aos deuses que
aplaquem sua possível ira, que conduziu as terras de Hermagon à ruína.
Em
momento aportuno irei ter mais uma vez
pessoalmente com o soberano de Egodam, afim de participar deta-lhes deste meu
peculiar pedido.
Mais
uma vez alerto: Detenha em Egodam o príncipe Sidrak, ele é o selo da garantia
de que o rei terá assim cumprida todas as cláusulas de seu contrato.
Sauda
Duran, Primeiro Ministro de Hermagom,
A
Beliel, rei de Egodam e sua e sua
rainha, em
nome
do rei Medrak.
Reverenciando sua majestade pela generosidade
Perante
nossas terras e nosso reinado.
Selou
a mensagem assim redigida com a marca real de Hermagon e instruiu a Garek, para
que fosse conduzida a seu destino o mais breve possível.
CAPÍTULO X
O
príncipe Meríades regressou aos aposentos de Sidrak por mais duas vezes,
participando a este o contato que tivera com seu mentor, bem como confidenciou
com o príncipe sobre a morte trágica e misteriosa de sua mãe, ocorrida há pouco
tempo. Sidrak ouviu tudo em silêncio. Antes de deixá-lo na última vez em que
estiveram juntos, Meriades lhe propôs que poderia tentar atenuar sua solidão
providenciando que alguma donzela da corte, viesse até seu quarto em sigilo e
pernoitasse com ele. O príncipe sentiu-se enrubescer, desconhecedor que era das
artes do amor, mas mesmo assim aceitou a proposta de Meríades.
Logo
na noite seguinte, após a refeição noturna, Sidrak ouviu batidas suaves à sua
porta. A qual abriu-se em seguida,
adentrando no quarto uma bela jovem. Esta, sem muitos prelúdios, conduziu o
príncipe para cama e, pela primeira vez Sidrak provou do sexo.
Sentiu-se
tomado por um vigor que há muito o abandonara, logo após a saída da moça,
sentiu por certo tempo o corpo lasso do transe de prazer, da iniciação nas
artes do amor, do fluxo intenso dos sentidos. Adormeceu por alguns momentos,
despertando em seguida tomado de uma emoção que há muito o abandonara. Uma
sensação de que expectativa, um princípio de esperança invadiu seu coração e
acreditou que nem tudo estava perdido. Podia contar com a amizade de Meríades,
bem como sabia que seu pai não permitiria que ele, seu único filho e herdeiro
de seu trono, permanecesse prisioneiro naquele território estranho.
O
verão chegara ao final e já avançava o outono, quando chegou no território de
Egolam Garek, trazendo a menssagem enviada pelo primeiro ministro de Hermagon
ao rei Beliel.
Já
conhecedor do caminho a ser percorrido entre os dois territórios, tomou atalhos,
encurtando o caminho, e em três dias completou o percurso.
Ao
adentrar os portões das muralhas que cercavam o castelo do rei Beliel, Garek
foi detido por Ezequias, chefe da guarda do rei. Porém, usou Garek de esperteza,
e viu mesmo no ensejo uma oportunidade de travar amizade com o guarda real.
Participou a este da missiva que trazia consigo, bem como do conteúdo desta.
Gabou-se perante o outro da confiança que o primeiro ministro das terras de
Hermagom depositava nele. Ezequias por sua vez ouviu tudo atentamente, fazendo
somente o seguinte comentário: “não consigo atinar porque seu senhor precisa de
um sacerdote ou sacerdotisa para levar a cabo seus planos? Por coincidência,
meu senhor Beliel, que enviuvou a pouco tempo desposou uma sacerdotisa, o que
não é comum em nossa terra. Teriam ambos, seu senhor Duran e o rei Beliel
alguma coisa em comum quanto a conduzir
para o trono a religião? Isso me deixa deveras cismado”.
Garek
não fez comentário algum, pois inclusive ele desconhecia quais eram os planos
de seu senhor quanto a solicitação de um representante religioso junto ao rei
Beliel.
Após
essa primeira conversa com o chefe da guarda Garek foi conduzido aos aposentos
destinados aos homens da guarda real, onde intruiram-no que aguardasse até que
o rei o convocasse.
Ainda
naquele mesmo dia veio mais uma vez até ele Ezequias, e conduzi-o a presença do
rei. Este encontrava-se ocupado em ditar a seus escribas a atual oneração sobre
os homens do povo, o acréscimo dos impostos, uma vez que a colheita se
aprentava farta naquele ano.
Levantou
o rei a vista e deu com o cavaleiro de Hermagon, o qual reconheceu de imediato
e, dispensando seus escribas deu ordens a este que se aprossimasse.
Garek
obedeceu prontamente, passando às mãos do rei o pergaminho que continha a
mensagem enviada a este por Duran. Beliel fixou o olhar no documento, e após
alguns instantes de silêncio, tornou a fitar Garek com seu olhar de águia,
verdadeiro animal de rapina, e com um sorriso irônico disse-lhe: “esteja pronto
para regressar em breve a sua terra,
pois assim como o solicitado na missiva será feito”.
Garek
retirou-se da presença do rei, e em poucos dias fazia o caminho de regresso a
Hermagon.
CAPÍTULO XI
Antes
que se desse o regresso do mensageiro de Duran a Hermagon, certa tarde,
inesperadamente, foram convocados o rei Medrak, o primeiro ministro Duran, bem
como Susana a irmã do rei, pois apresentava-se às portas do castelo real uma
carvana solicitando permissão para adentrar o território, pois traziam
mercadorias destinadas aos monarcas da terra.
Medrak
consentiu a entrada da caravana, e formou-se um cortejo para recebê-la. Homens
do povo, assistiram admirados a entrada através das muralhas do castelos a
passagem de carroças sobrecarregadas dos mais variados mantimento, além de
animais – bovinos, suínos e aves - , bem como por último carros sobrecarregados
de objetos em bronze, prata e ouro. Ao final, apresentou-se um emissário,
participando ao rei estar ali entregue o que em contrato acertara com o rei do
território de Egodam, seu senhor Beliel.
Medrak
simplesmente, fez uma reverência perante o mensageiro chefe da carvana,
anunciando a este que participasse a seu rei, que dentro do prazo mais breve
possível, seria saldado o compromisso entre ambos os reinados conforme as
cláusulas do contrato.
Surpresos
com a fartura de provimentos enviados por Beliel, orei e Susana sua irmã
entreolharam-se apreensivos. Desconfiaram logo daquela oferta que embora
generosa, implicava sem dúvida numa verdadeira afronta ao rei de Hermagon, uma
vez que junto com os mantimentos, que sem dúvida supririam as necessidades do
povo que ainda penava, acompanhava todo
aquele tesouro em bronze, prata e ouro, para eles desnecessário.
Duran
achegou-se ao rei e comentou: “Veja sua majestade, como é rico o rei de Egolam!
Atente só para o tesouro que lhe enviou!”, ao que o rei acrescentou: “Cale-se
Duran!”. Retirando-se em seguida.
Medrak
era homem sábio, e viu naquele préstimo por parte do rei Beliel, uma forma senão de afrontá-lo, buscar impressioná-lo
com sua riqueza, e mais que isso,
endividá-lo em penhora dentro do contrato que rezava o pagamento de 75% sobre o
que fosse enviado a seu reinado.
O
rei não preocupava-se tanto no saldo da dívida, principalmente agora que suas
terrras tinham novamente sido abençoadas com chuvas e na certa viria pela
frente uma colheita farta. Irritava-o todo aquele tesouro enviado pelo senhor
de Egodam: “castiçais em ouro e prata, adornos diversos de metal caro
encrustrados em pedras raras... aquilo era um absurdo, concluía Medrak consigo,
“e ainda por cima meu querido filho, detido em seu território. E que garantias
tenho eu de que cumprirá o rei Beliel sua parte no trato?”, todas essas
indagações turvavam os pensamentos do rei de Hermagon, que sentiu-se
amargurado, temendo principalmente pela própria vida de Sidrak seu filho.
Passou
o dia todo encerrado em seus aposentos, não atendendo nem mesmo a Susana, que
por inúmeras vezes veio até ele buscando confortá-lo, pois logo deu-se conta do
abatimento do rei, bem como não comeu nada até o anoitecer.
O
primeiro ministro Duran por seu lado, exultava com tudo aquilo, e via na
atitude do rei o comportamento de um homem pusilânime, incapaz mesmo de ocupar
um trono. Ora, porque preocupava-se Medrak por receber não só os provimentos
que seu povo necessitava, e ainda por cima um tesouro que acrescia de forma
considerável a riqueza da casa real?
Mas
o que mais interessava a Duran era o regresso de Garek, que como foi dito
partira para Egolam. Já tinha em mente um plano, na certa infalível. Seria
fácil livrar-se de Sidrak por intermédio do rei Beliel, que sabia daria conta
da cabeça do príncipe sem exitar, uma vez que Duran por sua vez conseguisse
destituir do trono a Medrak, dando lugar à uma aliança entre ele enquanto rei e
Beliel senhor de Egolam.
Conhecia
muito bem Duran ao cunhado seu rei, sabia de seus pontos fracos, e um deles era
seu temor aos deuses. Bastaria que um sacerdote ou sacerdotisa que assim o
fosse, declara-se ao rei um motivo para que ele agisse dessa ou daquela
maneira, ou tomasse essa ou aquela decisão, e Medrak, sem dúvida obedeceria
prontamente, sem titubear.
Esse
era o motivo pelo qual Duran necessitava de um religioso aliado a ele dentro
dos territórios de Hermagon. Não poderia contar com os sacerdotes de sua terra,
estes seriam incapazes de atraiçoar ao rei, ele bem o sabia. Um sacerdote vindo
de outro lugar, ou mesmo sacerdotisa, uma vez inserido nos domínios da religião de Hermagon, era a arma
primeira que Duran precisava ter em suas mãos.
Após insistentes protestos de Susana, o rei
Medrak enfim decidiu deixar seus aposentos. Já a noite caia, e ambos, o rei e a
irmã, passearam por algum tempo calados, pelos corredores externos do castelo a
contemplar a noite que se aproximava. O céu estrelado e o luar confortava um
pouco aos dois. E Susana respeitava o silêncio do rei, permanecendo calada,
simplesmente com o braço apoiado no dele, compartilhando silenciosamente de sua
dor.
CAPÍTULO XII
Na manhã
seguinte, o rei e sua irmã faziam sua refeição matinal na companhia de Duran,
quando veio até este um servo e
sussurrou-lhe algo ao ouvido. Este então, pedindo licença retirou-se.
Era
Garek que retornara de Egolam trazendo as boas novas ansiosamente aguardadas
por Duran. Vinha na companhia deste uma mulher já adulta, a qual Garek
apresentou a seu senhor como sacerdotisa do reino de Egolam.
Duran
mal conseguia conter seu entusiasmo. Chamou de lado seu homem de confiança e
indagou deste em voz baixa:
- E quanto a meu sobrinho Sidrak, o
que tem a me dizer?
- Não se preocupe meu senhor o rei
Beliel leu com seriedade sua missiva e pediu que lhe dissesse que tudo se daria
de acordo com o conteúdo da missiva - , foram as palavras do guarda. Ao que Duran exclamou:
- Ótimo, vejo que tudo caminha de
acordo com meus planos - e virando-se para a mulher ordenou a Garek que a
conduzisse para os
recintos do templo, onde deveria se apresentar
como sacerdotisa encaminhada pelo rei
para que servisse nos trabalhos
religiosos.
Que a iniciassem nos préstimos do
templo e nos hábitos da religião, de acordo com os costumes de Hermagom.
Susana
tentou animar seu irmão. Sugeriu a este que talvez fosse por bem ir ter
pessoalmente com esse rei de terras desconhecidas. Procurar investigar o motivo
de sua desconfiança, pois só podia ser este o motivo de querer seu filho
Sidrak, como que por refém em seu reino.
- Se necessário, lavre documentos que garantam a quitação dos préstimos
concedidos a nosso reinado. Participe a ele, que apesar das calamidades que se
abateram sobre Hermagon, temos condições de saldar a dívida, ainda que seja à
longo prazo. Devolva-lhe esse tesouro que nos enviou de forma inconveniente .
Quem sabe consegue convencê-lo de libertar nosso querido Sidrak para que retorne
ao nosso castelo? - foram as palavras da
irmã do rei que passara a noite inquieta, mal conciliando o sono, devido o
abatimento em que caíra seu irmão, o rei.
Medrak
respondeu simplesmente:
- Este rei está a nos afrontar. Quer impressionar-nos enviando-nos um
tesouro de suas terras, o qual nem sequer estava em nosso acordo. Vejo nisso
uma forma astuciosa de nos dizer que é rico em posses. Poderoso em seu
território. E de certa forma quer subjugar-nos sob o peso e embargo de dívidas.
Devo usar de cautela, há nas entrelinhas disso tudo uma intenção de nos
atingir, certa pretensão de ter-nos sob sua égide de alguma forma. Retém meu
querido filho em seu território porque na certa sabe que não atentaremos contra
seu reinado se ameaçar a vida de SidraK.
PARTE II
CAPÍTULO I
Susana era mesmo uma mulher de fibra, de uma integridade inquestionável
e após a conversa que teve com o rei levantou-se da mesa onde se demoravam na
refeição matinal e foi rumo a seus aposentos. Susana disse a serva, que desse
ordens para que não incomodassem o rei em seus e, retirando-se também da mesa surpreendeu-se
com esta a dirigir-lhe a palavra de forma suplicante:
- Perdoe-me minha senhora, mas o que se passa com o senhor nosso
príncipe. Ouvi o rei falar em ameaças à sua vida. Sei que estou sendo
importuna, envolvendo-me em questões que não me dizem respeito, mas afligi-me o
coração imaginar que algo possa acontecer a nosso amado príncipe Sidrak.
Susana
surpreendeu-se com a atitude da serva e respondeu a esta em poucos palavras:
- Não há com que se preocupar, seu rei e senhor sabe perfeitamente como
enfrentar qualquer perigo que venha a ameaçar seu príncipe. Agora vá e cumpra o
que as ordens que lhe dei.
Esta
serva era Aneliz, que naquela manhã fora designada a servir os soberanos à
mesa, e, ouvindo a conversa entre seu rei e a irmã sobre seu amado Sidrak não se conteve e ousou falar daquela forma à
sua senhora.
Susana
saiu para o jardim do palácio. O dia estava belo e ensolarado e ela sentia que
era obrigação sua tentar fazer alguma coisa que pudesse aliviar o rei em seu
sofrimento, só não sabia por ora o que.
A primeira idéia que lhe ocorreu foi procurar um dos cavaleiros que
seguiram na infantaria rumo a Egolam, e propor que este, sem o conhecimento do
rei seu irmão, a conduzisse pessoalmente até a região,
para que pessoalmente intercedesse junto
ao rei do lugar por seu querido sobrinho. Porém, temia a represália que poderia
vir da parte de seu irmão caso levasse a cabo tal plano. Bem como temia também
aquele rei que já tinha por déspota. Verdadeiro tirano.
Seguiu
rumo ao templo decida a interceder junto aos deuses que mais uma vez intervissem
a favor de Hermagon que agora que fora abençoada novamente em sua fertilidade,
fosse também abençoada na harmonia e felicidade futura de seus soberanos.
Recordou-se
Susana inclusive, naquele momento, enquanto se encaminhava para o templo, dos
tempos de reinado de seu pai, antecessor do rei Midrak. Homem que soube deixar
um legado de justiça, bem como soube como instruir seu irmão no sentido de suceder-lhe
no trono, dentro da lealdade e honra, condizentes com um soberano que ama não
só o poder em suas mãos, mas acima de tudo, respeita e governa seu povo com
justiça e equidade.
Ao
adentrar as dependências do templo, foi ter com o sumo sacerdote, recebendo
deste sua bênção, bem como foi logo recebendo a notícia de que havia uma nova sacerdotisa
a servir nos trabalhos religiosos. Era mulher já madura, e disse ter feito
votos de silêncio, portanto, o sacerdote não sabia dizer a sua senhora qual sua
origem, ou mesmo quem a indicara para os préstimos religiosos.
Num
primeiro momento Susana nada disse, porém temeu mais uma vez em seu coração por
Sidrak por quem estava vindo interceder e alertou o sacerdote:
- Senhor, sei que és sábio e no posto de um homem que serve aos deuses,
talvez possa parecer ingenuidade minha pedir-lhe que esteja atento a esta sacerdotisa
recém iniciada e vinda não se sabe de onde. Porém peço que fique atento, pois
estamos passando por um momento difícil. Nosso príncipe encontra-se como sabe
detido nos territórios daquele que se propôs a acudir-nos na calamidade que
recentemente abateu-se sobre nós. Qualquer pessoa pode tornar-se um inimigo do
rei, dentro de seu próprio território se for
objetivo deste soberano de terras distantes dar cabo da vida de nosso
príncipe.
Em seguida retirou-se do templo
caminhando rumo aos bosques dos arredores do castelo do rei. Seus pensamentos
permaneciam no sobrinho, exilado em terras que sabia inóspitas. Durante toda a
manhã
percorreu solitária e triste os
arredores do castelo, jamais pensara que algum dia haveria de passar pelo
transe que vivenciava
CAPÍTULO II
As terras de Egodam eram vastas. O
reinado de Beliel estendia-se desde o nascente ao poente, desde o norte ao
extremo sul, praticamente por sobre terras férteis. Razão pela qual ser tão
rico e afortunado o rei em seus domínios.
No entanto, justamente para as bandas do poente havia uma densa
floresta, pouco conhecida pelos habitantes do reino em geral. Para além desta
floresta, na qual havia inclusive várias regiões pantanosas. Havia na direção
do extremo oeste um precipício, que dava em parte para o mar que banhava também
aquela região do território de Egolam.
Susana impacientava-se a cada dia mais e mais com a situação em que se encontrava seu sobrinho Medrak, cativo nos
territórios do rei Beliel. Como ficou dito mais preocupada ainda se viu ao
saber que nos recintos sagrados do templo dos sacerdotes e sacerdotisas de
Hermagon encontrava-se aquela enigmática sacerdotisa, vinda sabe-se lá de onde.
Senhora de um voto de silêncio.
Permaneceu por mais de quinze dias procurando não demonstrar ao rei
Medrak seu irmão o pesar em seu coração, perante a situação que enfrentavam.
Foi quando uma ideia lhe ocorreu. Lembrou-se do soldado Garek, homem que
tinha como de extrema confiança, justamente
aquele que partira rumo à busca de ajuda e aliança com um possível
território, ainda que completamente desconhecido, em companhia de Medrak, perante as calamidades
que se abatiam sobre o território de Hermagom como foi citado no início desta
narrativa.
Deu ordens então Susana a um de seus
servos, pedindo a este extremo sigilo, que procurasse uma forma de participar
ao soldado Garek que tratasse este de encontra-la dentro de três dias num local
por ela determinado, para além das muralhas do castelo de Hermagom, pois
precisava urgentemente de um contato pessoal com este.
E assim se deu. O servo de Susana passou o recado ao soldado, o qual no
dia combinado tratou de rumar junto ao local determinado pela rainha.
CAPÍTULO III
Ao aproximar-se do local o saldado Garek
avistou logo ao longe sua senhora a rainha que o aguardava ansiosa, próximo à
um carvalho retorcido, meio que oculta
na mata que mais semelhante a um campo de trigo se assemelhava, naquele local
bucólico não muito distante do castelo, onde o soberano Medrak àquela hora, na
certa repousava, pois pouco passava da hora da refeição do meio dia.
Garek estava nervoso, intranquilo e cismado. Pois na verdade não imagina
que assunto tão importante teria a rainha, sua senhora, a tratar com ele de
modo tão discreto e que exigia tanto sigilo.
Achegou-se a ela, e foi logo saudando-a com reverência, dobrando os
joelhos como aguardando de Susana sua bênção, como era costume dos chefes de
armas do reinado.
Para surpresa de Garek, mal este curvou-se, foi cercado por outros
soldados que como que surgidos do nada o detiveram.
Susana havia providenciado que seus soldados, os de seu guarda pessoal a
acompanhassem, e orientados por ela contivessem Garek, imobilizando, bem como
amordaçando-o para que evitasse que este soltasse qualquer grito de alarde.
Inquiriu então a rainha daquele guarda do reino que lhe participasse
tudo o ocorrido no reinado de Egolam desde que chegou lá com seu sobrinho e seu
marido Duran.
Garek na verdade sentiu-se temeroso e findou por declarar a rainha tudo
que se passara, inclusive a trama de seu marido Duran de deixar o príncipe
Sidrak como refém do trato fincado com o rei Beliel no que se referia a
encaminhar auxílio ao território de Hermagon.
Após declarar tudo que sabia, Garek caiu aos pés de sua rainha
suplicando que esta tivesse misericórdia dele, que na verdade nada mais fez que
cumprir estritamente as ordens de seu marido Duran.
Susana então disse a ele que se pusesse de pé e que não se atormentasse
tanto, a menos que deixasse de cumprir um acordo que haveriam de estabelecer, e
que permanecesse em completo sigilo entre ele e ela. Ninguém no reino de
Hermagom se quer o rei Medrak deveria ter conhecimento do acordo que ele
travaria com ela.
Garek então jurou dando sua palavra. E bem temeroso se demonstrou, pois
Susana foi incisiva na punição da quebra do sigilo que estabelecia com ele.
Tudo isso aconteceu sem que o rei Medrak
tivesse conhecimento.
Susana confiou em sua intuição de feminina, que lhe dizia que, certamente
um dos soldados de confiança de Duran seu marido fosse
capaz de esclarecer o mistério que
envolvia o cativeiro do príncipe Medrak seu sobrinho nos territórios de Beliel
senhor das terras de Egolam.



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