O FRUTO
MALDITO
Como seria possível ir adiante, se a
perdição já se apresentava consumada.
Leonor saiu pela manhã como sempre fazia
todos os dias, carregando consigo as chaves dos dois cômodos que ocupava com os
dois filhos. Deixando-os para trás a fim de mendigarem algo pelo pão. Bem como
já há tempos conformada, por ter sido abandonada pelo homem que os gerara.
Atravessou como sempre a avenida
movimentada nas proximidades do bairro pobre onde morava. Onde há custo
conseguiu instalar-se e pagar um aluguel que já se arrastava com mais de dois
anos de permanência e dois meses de atraso.
Naquele dia como sempre, insegura e
ansiosa, a amargura a varrer-lhe a alma, caminhava a passos rápidos. O dia
ainda por nascer, buscando não perder a condução que a conduziria até a casa de
sua patroa, onde passava, lavava e dava conta de toda limpeza.
Com as feições como sempre expressando o
avesso daquilo que sentia, viu o dia raiando, e sentada no ônibus que haveria
de superlotar antes que alcançasse seu ponto de descida, olhava pela vidraça e
só então um princípio de alegria brotava em seu interior. Uma certeza de que
amanhã ou para o próximo mês ou ano, tudo haveria de alterara-se, e folgaria na
sua condição de desafortunada.
Sem dar-se conta, já caminhava a passos
vagarosos, no bairro burguês onde prestava seus serviços, com o sol a varrer a
paisagem, sem nada aquecer naquela manhã fria de inverno.
Apertou a campainha como sempre fazia
anunciando sua chegada, e lá pelas cinco horas da tarde, já havia vencido mais
um dia de trabalho árduo.
O regresso como sempre mais penoso que a
ida, conduziu-a de volta às proximidades de sua casa, sentindo-se ela como que
vomitada pelo ônibus superlotado.
Adentrando a casa foi logo em alta voz
chamando por Manuelito e Rubens, e confiscando destes o fruto de seu mendigar.
Afinal, como haveria de pelo menos garantir algo que lhe poupasse algum
dinheiro? O da condução do ônibus, por exemplo, que a conduzia todos os dias em
seu penar?
Manuelito encolheu-se num canto sob os
esbravejos de Leonor, enquanto Rubens escapuliu porta à fora. Afinal, não era a
primeira vez que gastavam o pouco que conseguiam mendigando com outros garotos.
Ou até mesmo voltavam no final do dia sem ter conseguido arrebatar nenhum centavo.
Leonor mandou ao diabo seus dois
rebentos e tratou de aquecer um pouco d’água para um banho morno. E verificou o
que havia nas panelas para que não fossem dormir de estômago vazio.
Manuelito espiava de seu canto, curioso
por saber o que heveria além do arroz com feijão e ovo rotineiros. Leonor havia
comprado um meio quilo de carne moída.
O menino aproximou-se e disse:
- Mamãe, hoje então tem carne?
- Maldito seja diabo de menino! Fica
calado ou leva uma sova. Volta de mãos vazias e ainda vem se animando porque vê
um pouco de carne. Olha que talvez tenha que render até o fim do mês. Agora vai
atrás de teu irmão.
Manuelito atendeu prontamente a mãe,
sabedor inclusive que caso desobedecesse levaria uma sova mesmo.
Em breve estava de volta com o irmão.
- Mãe! – exclamaram.
- Já saio do banho.
Os dois garotos ligaram o televisor e se
postaram diante dele. Quietos, famintos e em silêncio.
Leonor saiu do banho, pôs os pratos na
mesa e chamou os dois:
- Venham logo antes que esfrie, não vão
ficar na televisão até tarde, já sabem: amanhã cedo os dois na rua para ver se
trazem alguma coisa para casa. “Oh, Meu Deus! Já não basta ter de dar conta de
mim, e ainda por cima sustentar essas duas pestes, malditos sejam”.
Pegou seu prato e foi para junto da T.V.
ver sua novela.
Na manhã seguinte, Manuelito e Rubens
trataram de como sempre cair fora da cama cedo, logo após Leonor partir para o
trabalho. Evitavam as vezes a travessia da avenida movimentada, para além da
qual havia um trilho de trem, cujos vagões passavam a longos espaços de tempo.
Trem de carga nem sempre com horário definido.
Rubens então disse a Manuelito:
- Vá mais por baixo lá para os lados do
trem, eu vou ficar aqui próximo à avenida. E já sabe seu pirralho, o mais velho
sou eu, trate de não gastar nem dividir o dinheiro que conseguir com ninguém.
Ao que Manuleito respondeu simplesmente:
- Tá certo, não sou nenhum besta.
E adentrou pelas ruas em direção ao
pôr-do-sol, onde vez ou outra passava o trem soltando sua fumaça, tão antiga
era a carreira de vagões que por ali raramente passava.
Encontrou um casal que subia no rumo
oposto e arriscou:
- Moça, Moço... dá um dinheiro pra mim
pelo amor de Deus. Lá em casa estamos passando fome.
- Sai menino, não tenho dinheiro.
Foi a resposta do moço ao garoto.
Manuelito não se deu por rogado, e pôs-se a assobiar indo adiante, sabendo que
na certa amoleceria o coração de outro.
Foi quando passando junto à uma casa de
muro baixo sem reboco, avistou um lindo pé de laranja. E ainda por cima
carregado.
Não deu outra, pulou o muro, munido de
um pedaço de pau, e cautelosamente, espiando para a casa de longe subtraiu da
laranjeira três laranjas.
Envolveu-as na camiseta, subiu o muro,
soltou as laranjas na calçada e pulou para ela.
No primeiro boteco que encontrou interpelou
o dono e pediu para partir em bandas as três laranjas. Os olhos do pobrezinho
brilhavam de alegria.
Sentou na beira da calçada próximo ao
bar e deu conta de cinco bandas. A última saiu chupando distraído rumo aos
trilhos do trem em busca da outra margem da ferrovia.
Mal Manuelito pôs os pés no pedregulho
dos trilhos, o som da carreira de
vagões lhe ensurdeceu os ouvidos, e sem tempo de atravessar os trilhos, foi
massacrado pelo trem.
Uma multidão acorreu com a parada súbita
dos vagões e os gritos do maquinista em desespero.
O dono do bar que já vira Manuelito
várias vezes por ali, disse logo:
- Era o filho da Leonor.
O boato correu rápido e chegou aos
ouvidos de uma tal Genoveva, amiga de Leonor, que apressada ligou para a casa
dos patrões desta e disse simplesmente:
- Digam a Leonor que volte para casa,
pois houve um acidente aqui perto.
A patroa deu o recado a Leonor, que com
certa medida de alegria, foi-se rápido portão à fora, afinal não era todo dia
que folgava dessa forma. Intrigava-a somente o que teria acontecido.
Ao descer do ônibus no ponto próximo
à sua casa, alguém foi logo lhe dizendo:
- Dona Leonor, seu filho Manuelito... Lá
para os lados da antiga ferrovia....
A mulher correu desesperada, sem
imaginar o que a esperava. Ao aproximar-se dos trilhos, empurrando a multidão,
seu olhar deu com o corpo de Manuelito estraçalhado sobre os trilhos.
Leonor solta um tétrico grito de dor, pelo fim
do amaldiçoado fruto de seu ventre.
FIM


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