“DE REGRESSO NO OUTONO”
“A minha alma tem tédio de minha vida,
darei livre curso à minha queixa, falarei da amargura da minha alma...” Começo
minha estória com essas palavras subtraídas da Bíblia.
Eu sou Hermes. Sempre amei o inverno. De
todas as estações do ano era aquela que mais me agradava. No inverno sempre
houve em mim uma maior predisposição física. Bem como maior identificação de meus sentimentos para com o mundo a meu
redor. E, embora não desprezando uma manhã ensolarada, ou um belo pôr-do-sol,
sempre senti-me inebriado, numa espécie de pré-climax, nos dias cinzentos de
inverno. Aqueles em que o sol não aparece e tudo na natureza torna-se
acinzentado.
Costumava mesmo em época de verão
viajar para hemisfério norte em busca do inverno.
Natural que sou dos trópicos, jamais fui
capaz de suportar a idéia de ver-me submetido por longo tempo às altas
temperaturas de verão nestas regiões.
Meu coração sempre esteve na
possibilidade de fixar-me em um país europeu, como a Inglaterra, onde
acreditava poderia comprazer-me mais o clima.
Já os anos avançam e o tempo acentua em
minha face as rugas. Penso inclusive, que na verdade não deveria expor-me assim
de forma deliberada. Narrando fatos que, estou certo, já deveria ter quitado
com a vida.
Apesar disso quero falar de mim, mas não
integralmente de mim. Quero falar de uma fração, uma parcela de mim.
Logo cedo, saído da adolescência, perdi
meus avós maternos, bem como minha mãe. Meus avós paternos já não os tinha.
Há aqueles que são mais afortunados ou
não. Se é que essa palavra – fortuna - possa expressar sozinha, a perda ou não daqueles que se ama. E ainda
hoje, já avançado em anos, se volto a olhar para o passado, encontro mais
motivos para lágrimas que para júbilo.
Óbvio que ainda me resta entes queridos.
Porém casa-se com as citadas perdas, aquela que mais me dói. E não foi por
responsável desta a morte, mas sim um outro homem.
Houve uma fase de minha vida em que tudo
transcorria como um rio em seu imperturbável curso. Foram anos somados a outros
anos, que transcorreram de forma imperturbável. Isto deu-se dos vinte e quatro
anos até próximo aos cinqüenta, quando conheci Ana.
Primeiramente
devo falar de Elifaz.
Elifaz foi alguém que de companheiro
passou a amigo íntimo meu e, mais tarde, também de Ana.
Era um homem plenamente dedutível em
seus atos. Deveras previsível. Uma vez próximo a ele, em pouco tempo de
convivência já se sabia todos seus gostos e hábitos. Bem como transmitia uma
sensação de previsibilidade. A certeza infalível de que não nos frustraria.
Assim como hoje, amanhã,
Elifaz seria o mesmo.
Diria palavras próprias suas. Não
deixaria de sorrir se houvesse motivo para isso. Seria contundente em suas
opiniões sempre inalteráveis, como da mesma forma não traria à baila nenhum
assunto inédito.
Ou seja, Elifaz nada acrescia a ninguém,
também de ninguém nada tirava.
Assistiu ele o que se passou entre eu e
Ana bem a nosso lado, embora tenha sido fator essencial no desfecho.
Pois bem, foi tomado por meu deleite
pelo inverno, que numa viagem que fizemos, eu e Elifaz, conhecemos Ana.
Era ela uma mulher madura, recém viúva,
senhora de um encanto próprio seu, que conquistou logo meu coração de
solteirão. Solitário que fui por muito tempo, me vi exposto àquela
possibilidade de enlaçar-me a uma mulher, que percebi também solitária e,
porque não dizer, carente de afeto.
Confidenciei isso logo a Elifaz que,
como sempre, nenhum comentário fez perante o que lhe segredei.
Ana, assim como eu e Elifaz, estava de
passagem pela acolhedora Londres. Não fugindo do inverno dos trópicos como eu,
antes simplesmente buscando deixar para trás os últimos resquícios de seu pesar
pelo falecido marido.
Conhecemo-nos ao acaso. Elifaz e eu
ocupávamos uma mesa num restaurante, quando Ana entrou e tomou assento numa outra
mesa próxima à nossa. Seu olhar então cruzou com o meu.
Sempre
fui recatado quanto às mulheres, tímido mesmo,
porém encontrei
naquela mulher madura e de olhar translúcido,
um não sei quê de formosura e deixei-me levar por meus instintos.
Chamei o garçom e pedi que entregasse a
ela um bilhete convidando-a a partilhar a mesa conosco. Ana então juntou-se a
mim e Elifaz e deu-se início uma calorosa amizade.
Demonstrava-se ela expansiva,
retribuindo meus protestos de mulher admirável que era. A cada elogio que eu
fazia, vinha uma colocação modesta como: “imagine, sou simplesmente uma viúva
solitária e nada mais”.
Solidão, como podia aquela mulher bela e
encantadora falar de solidão. Refletia eu intrigado. Sabia muito desse
sentimento que me acompanhou por longo tempo, bem como sabia o quanto era
difícil para um homem ver seus dias passarem, procurando uma forma de preencher
as lacunas que a ausência de uma companheira gera.
Quantas noites não vaguei em busca de
alguém com quem partilhar meu isolamento? Indagava de mim mesmo uma forma de
abordar alguém, alguém com quem dividir meus fardos.
Ana traia-se pelo seu olhar sereno,
seus sorrisos radiantes, sua maneira segura de dialogar, naquilo que chamava de
solidão.
Eu de minha parte, não fosse estar acompanhado
de Elifaz, teria perdido a oportunidade de aproximar-me mais dela. Pois sei,
que, se estivesse sozinho, não teria tido coragem de tomar a iniciativa de
convidá-la a vir até mim.
- Ora essa Ana, como uma mulher tão
meiga e que transpira alegria e segurança pode falar em solidão? – retruquei
eu.
Ela
acrescentou somente:
- Você está sendo lisonjeiro. E seu
amigo? Não diz nada?
Ao que
Elifaz comentou de forma displicente:
- Não sou dado a falar de mim, aliás sou
um homem comum como outro qualquer. Sinto muito sua perda.
Sem me dar conta, minha imaginação
conduziu-me dali para outro lugar. Daquele momento para outro distante no
passado.
Vi-me em minha terra natal, ainda jovem,
quando noivei com Clarice. Uma moça de incontestável beleza e que me trocou por
um outro rapaz às vésperas do casamento. Eu apaixonado que me encontrava por
ela, nada mais fiz que recuar perante meu rival, que demonstrava superar-me em
todos os aspectos. Ele sim estava à altura da encantadora Clarice, não eu.
Com isso, fui tomado de sobressalto
quando Ana de repente toca minha mão e diz:
- E você Hermes, o que diz quanto a
isso?
Perdoei-me dizendo que estava desatento
e não me dera conta do que ela e Elifaz conversavam.
Ela então
acrescentou:
- Que pensamentos estarão a fazer
divagar nosso amigo Hermes?
Respondi
prontamente:
- Nada de importante. Estava
recordando-me de uma situação que vivi no passado.
- Elifaz dizia que já dispensou inúmeras
oportunidades de um relacionamento mais sério. E que já próximo aos quarenta,
dá-se por satisfeito com a vida de solteiro. E então, o que me diz disso? –
indagou Ana de mim.
Senti-me constrangido. Surpreendia-me
que Elifaz principiasse a fazer-se eloqüente, enquanto eu evasivo. Então disse:
- Já teria me casado há tempos caso
houvesse encontrado a mulher ideal. E me refiro àquela que me conquistasse por
completo. Preenchendo-me o vazio do coração.
- Nunca é tarde – interpelou Elifaz.
Surpreendendo-me novamente.
Ana disse que precisava deixar-nos, pois
tinha um compromisso. Pedi que prometesse entrar em contato conosco, uma vez
que não deixaríamos Londres tão cedo. Passei-lhe o telefone do hotel onde
estávamos hospedados eu e Elifaz. Ela disse que não podia prometer, mas sendo
possível faria um contato.
Levantou-se e atravessou a porta do
restaurante, deixando para trás o rastro de seu perfume sedutor.
Elifaz e eu voltamos para o hotel. Mal adentramos
o quarto, principiei numa confidência, hoje sei, descabida.
- Estou mesmo apaixonado. Depois de
tantos anos sozinho parece que o destino me sorri. Que mulher encantadora, não
concorda Elifaz? – interpelei eu meu amigo.
- Refere-se a Ana? – retrucou ele.
- A quem mais poderia ser? –
acrescentei.
- Cuidado amigo, o destino as vezes
nos prega peças. E atente ao fato de que você mal acaba de conhecê-la.
- Ora Elifaz, não pretendo acabar meus
dias sozinho. E o que poderia haver de arriscado em envolver-me com uma mulher
tão cativante?
- Pense bem, é melhor procurar
conhecê-la melhor antes de já partir para possíveis declarações de amor. Nunca
se sabe. Hoje ela pode lhe parecer a pessoa mais cativante e meiga do mundo,
amanhã quem sabe?
Confesso que me surpreendeu aquela
maneira implicante com que Elifaz se referia à pessoa de Ana. Porém considerei
o fato como a atitude de um amigo que se preocupa com o outro e nada mais.
- Vamos visitar um museu? Passear um
pouco antes do anoitecer? – sugeriu meu amigo.
- Não, vá você. Quero tomar uma banho
demorado e refletir em suas palavras sobre nossa recém conhecida – respondi.
- Está bem, até mais então.
- Até mais!
Ao ver-me só, por um momento cheguei a
indagar-me de mim sobre o que se passava com meu amigo. Sempre tão neutro em
relação a tudo, e agora aquela atitude de verdadeiro conselheiro. Mas logo meus
pensamentos se voltaram para a mulher do restaurante. Como era encantadora,
recatada inclusive, até mesmo no trajar. Uma das coisas que muito me chamou a
atenção, pois na certa era uma mulher de nível social considerável.
Haveria de reencontrá-la. Algo me
garantia isso. E embora tomado pelo tédio, e um tanto quanto apreensivo quanto
a possibilidade de conquistá-la, encarei com otimismo a situação.
Fui para o banho e logo após,
reclinei-me na cama, adormecendo de roupão. Despertei com Elifaz a chacoalhar-me
o ombro.
- Ora essa, não me diga que dormiu até
agora? Ande, vamos. Vista-se e vamos
jantar – disse ele.
- Como foi o passeio? – indaguei eu.
- Excelente, Londres é mesmo
maravilhosa. Imagine você que tornei a encontrar-me com Ana por acaso no museu.
- Não me diga. Sou mesmo azarado,
houvesse ido junto com você e não teria perdido a oportunidade de convidá-la
para jantar.
- É, mas não foi. Agora se apresse,
estou faminto.
- Não demoro. Visto-me rápido e descemos
para o jantar.
Que horas são? – indaguei.
- Quase oito – respondeu ele.
Descemos para o restaurante do hotel,
jantamos e regressamos para o quarto.
No dia seguinte pela manhã, despertei
com o toque do telefone, era o recepcionista do hotel passando-me uma ligação.
Perguntei quem era e ele disse tratar-se de uma senhora. Era Ana.
- Pode passar a ligação – disse eu.
- Alô, Ana!
- Sim, é Hermes?
- Eu mesmo. Que alegria em ouvir sua
voz. Julgava que talvez se quer voltássemos a nos ver.
- Ficarei em Londres por mais uma semana
na certa. Encontrei-me com Elifaz no museu ontem à tarde, ele lhe disse?
- Sim, claro. Arrependi-me de não ter
ido com ele.
- Poderíamos nos encontrar os três hoje,
o que acha? – indagou ela.
- Claro disse eu, basta marcar o local.
Mais uma vez nos encontramos os três:
Elifaz, Ana e eu. No mesmo restaurante de antes. Foram momentos inesquecíveis
para mim aqueles que estive junto daquela mulher, que despertou em mim tamanho
fascínio.
Só não entendia porque não a abordava de
forma mais objetiva. Sempre fui tímido como creio já haver dito. Porém
sentia-me de certa forma confiante, sentindo-me correspondido antes mesmo de
declarar a ela meus sentimentos.
Mal sabia eu, que aquela seria a última
oportunidade que teria para dizer a ela o que se passava em meu íntimo. Dizer
que estava apaixonado.
Grande parte do tempo que passamos
juntos os três naquele dia, fiquei somente a contemplá-la. Por vezes ouvia o
som de sua voz, o soar das palavras. Bem como ouvi risos da parte de Elifaz,
mas se quer atinava no que esta dizia, ou qual o motivo dos risos de meu amigo.
Estivemos juntos por um longo tempo até
que Ana, mais uma vez como antes, disse que precisava nos deixar, pois tinha um
compromisso.
Regressamos novamente eu e Elifaz para
o hotel. Este foi logo dizendo no caminho:
-
Você está deveras apaixonado. Pensa que não reparei na forma como ficou a
envolvê-la com o olhar o tempo todo?
- Ora essa, estou certo que desta vez
desencalho! – exclamei eu rindo e esbarrando num transeunte na calçada.
Elifaz nada mais acrescentou. A noite
embora fria, estava bela, o céu estrelado e a lua a orquestrar o brilho de
todas elas. Como havíamos jantado os três, assim que adentramos o hotel, Elifaz
sugeriu:
- Porque não bebemos alguma coisa para
comemorar o presente que você afirma que o destino lhe concedeu.
- Ótima idéia. – concordei eu.
Bebi inclusive além da medida. Quando
despertei no dia seguinte sequer lembrava-me como havia ido parar no quarto.
Esfreguei os olhos e virando-me para a
cama a meu lado, não vi meu amigo. A cama inclusive parecia nem ter sido
desfeita.
Liguei então para a recepção e perguntei se
sabiam me dizer se o Sr. Elifaz havia saído logo cedo.
Disseram-me simplesmente que o Sr.
Elifaz havia quitado sua conta na noite anterior e havia partido.
Já adentrava fevereiro então, quando deu-se o
corrido. Eu não conseguia entender a atitude de meu amigo. Porque motivo
deixava-me assim para trás. Sem se quer dizer quando nos reencontraríamos. E
indagava-me do que o levara àquela atitude absurda. A idéia de que algo de
trágico acontecera me veio à cabeça. E conclui comigo que na certa em breve ele
acharia uma forma de entrar em contato comigo.
Felizmente havia Ana, ponderei comigo.
Ana era tudo que importava para mim no momento.
Tomei um analgésico para a dor de cabeça
que me perturbava devido ao excesso de álcool da noite anterior. E parti então
para um banho, devo dizer, feliz como nunca sentira-me antes.
Pensei então comigo: “melhor assim, com
Elifaz distante, no próximo contato que tiver com Ana, participo a esta meus
sentimentos; intenção mesmo de compromisso. Tudo resultará num final feliz”.
Porém, para meu desapontamento,
passaram-se dias, semanas, adentrou a primavera e nenhum contato, nem de Ana,
muito menos de Elifaz.
Quanto a ela deduzi que regressara para
sua terra natal, e eu mais uma vez agira como um estúpido. Já em relação ao meu
amigo, algo me dizia que iludira-me quanto à sua amizade. Pois o telefone que
possuía dele, chamava e ninguém atendia. Tanto liguei, que por fim desisti, e
inclusive desapontado, atirei o papel com o número no lixo.
Permaneci ainda em Londres por dois
meses. Próximo à entrada à entrada do verão, lembrei-me que Ana mencionara
residir na Austrália, terra natal de seu falecido marido.
Foi essa lembrança que expulsou de meus
dias o topor que me acometeu desde o fim do inverno, até a entrada do verão em
Londres.
Foram dias longos, tediosos e beirava eu
o desespero, tamanha era a solidão que me invadia a alma. A desolação que se
apossava de mim.
Decidi então partir para a Austrália.
Não porque acreditasse na possibilidade de rever Ana, mas, simplesmente porque
não me ocorreu outra coisa a fazer.
Estive na
Austrália por longo tempo. Chegado o outono,
considerei
comigo que era tempo de voltar para casa.
Ao regressar, fiz o roteiro do aeroporto
até minha casa olhando a paisagem da cidade mergulhado numa tristeza tão
profunda como nunca sentira antes.
Quando o carro entrou na rua de minha
casa, tinha eu o olhar perdido nas casas próximas à minha e nas árvores que
despejavam folhas ao vento. Era outono.
Saltei do carro após pagar o motorista.
Garoava um pouco, e havia folhas secas e úmidas por toda parte.
Abri a porta. Depositei a mala no chão e
dirigi-me a passos lentos para a sala. O carteiro havia esparramado a
correspondência por baixo da porta. Abaixei-me, recolhi tudo,
e comecei a
selecionar o que me interessava.
Foi quando dei com um envelope remetido
a mim por meu amigo Elifaz, com o seguinte conteúdo:
Caro
Hermes,
Venho através desta comunicar-lhe meu
casamento com a senhora Ana Linkchevicius.
A qual lhe envia lembranças, e como
participei a ela o que se passou em Londres, ou seja, sua paixão súbita por ela
preferimos manter anônimo nosso atual local de residência.
Espero que algum dia tornemo-nos a nos
reencontrar, o amigo de sempre.
Elifaz.
FIM


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