“O ELO
ROMPIDO”
“Porque se o sal perder o seu sabor,
com que se haverá de salgar ?”
.
Jesus Cristo
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Algumas vezes se acendem velas por motivo de alegria. Outras vezes ao
contrário vela-se a dor. A mais profunda das tristezas. E a cera destas velas
derramam-se então, deslizando por elas suas gotas como se lágrimas de algum
anjo fosse.
Talvez aquele que
leia essa estória se quer se comova com o transe de Olavo, o infortúnio de
Carmem, ou ainda com o final irônico e fatídico de Gustavo. Mas, de uma coisa
estou certo, da mesma forma que o vermelho não agradaria aquele que o ama, não
fosse existir o preto para aquele que por ele se apaixona, alguns encontrarão
nessa estória motivo para lágrimas e para o luto. Como alguém que leva ao
túmulo de outro alguém uma rosa.
Eram tempos difíceis
aqueles. Tempo em que não se deflagrava uma guerra, mas no entanto milhares
agonizavam como que vítimas de uma peste. Uma peste que mais tarde saber-se-ia
irremediável.
E assim como uma
epidemia que se alastra na velocidade do esbarrar de uma pálpebra com a outra,
milhares de pessoas padeceram do mal a que me refiro. E se hoje aquele que me
lê, encontra-se recostado confortavelmente em uma almofada, e o seu coração lhe
bate tranquilo, sem angústia, ansiedade ou mesmo terror. Agradeça a Deus não
ter sido vitimado pelo mal de caráter letal ao qual me refiro e que conduziu
muitos inclusive ao suicídio. Pois só assim viam-se livres dos sintomas daquela
doença.
O mundo transcorria
num período histórico como outro qualquer. Corria aos quatro cantos, o
homicídio, o furto e o roubo, bem como ameaças de guerra. Ao mesmo tempo
ladeado ao curso da rota de satã sobre a terra, transcorria de forma
inquebrantável: datas festivas, comemorações políticas generalizadas, apelos
emotivos pelos famintos, ou vestimentas para os miseráveis. Ou ainda
simplesmente o otimismo e a nobreza daqueles que creem em dias melhores.
Assim de certa
forma, tudo será talvez esquecido num futuro não muito distante. E com isso me
refiro ao drama de Olavo, Gustavo e Carmem. Quanto à peste, a epidemia daqueles
dias, servirá de métrica para gerações futuras. E rendam graças os que
conseguiram atravessar aquela época, sem serem tocados como que pelo dedo
vingativo de Deus que a muitos fez tombar
por intermédio da citada praga.
Vamos então ao que
interessa, ao que deveras quero que o leitor se atenha e lhe seja por narrativa
inesquecível.
Olavo esbofeteou
com toda a força de seu braço de homem a face de Carmen bradando com voz
inquebrantável:
- Nunca mais me
verás imunda, nunca mais me verás, estás ouvindo? – Repetia ele. E dando-lhe as
costas retirou-se levando consigo numa mala algumas roupas, e no braço um
sobretudo. Era essa sua bagagem.
Ao sair cruzou com
o sogro que esbarrando em seu ombro perguntou para onde se dirigia à uma hora
daquelas. O silêncio foi a resposta. O pai de Carmem entrou então no quarto da
filha e inquiriu dela o que se passara.
Debruçou-se Carmem sobre o peito do pai
e disse simplesmente:
- Trata-se de
ciúmes, nada mais... Ele pegou-me abraçada ao médico que encomendamos para
socorrer Gustavo e concluiu consigo tratar-se de traição.
O pai de Carmem
abraçou a filha e buscou confortá-la dizendo:
- Ele
regressará querida, ele regressará.
Gustavo irmão
de Carmem era pela quarta vez internado em sanatório psiquiátrico devido a um
mal que até o momento não fora diagnosticado. O pobre rapaz sofria dos sintomas
da chamada depressão. O mal ao qual me referi como a peste. Tendo por vezes acessos repentinos de
alucinações que o conduzia a um comportamento agressivo tornando mesmo difícil
à família mantê-lo em casa. Num desses acessos de demência, chegou mesmo a
ferir o pobre pai com uma faca. O ferimento embora não tenha sido muito grave
levou todos ao desespero.
Olavo era
conhecedor do fato. Logo após o casamento Carmem fez questão de inteirá-lo do
assunto. O marido atuava com seu pai em atividade relacionada ao ramo
imobiliário e fora convidado pelo sogro a dividir com eles residência. Viúvo, o
pai da moça, via como oportuna a ideia de não separar-se da filha, mantendo-a
junto a si, mesmo depois de casada.
Naquele dia
Gustavo que já há bom tempo apresentava sintomas graves do mal que o acometia
tentou dar cabo da própria vida ingerindo uma overdose dos medicamentos que
fazia uso. Carmem e seu pai em desespero comunicaram o médico que providenciou
a internação do rapaz. Foi quando se deu o incidente que conduziu Olavo a sua
atitude drástica de agredir a esposa ao adentrar o quarto do casal e encontrar
esta abraçada ao médico que a confortava. Deduziu este logo tratar-se de
traição. De natureza rebelde, irredutível em seu modo irascível muitas vezes de
agir, terminou por agredi-la.
CAPÍTULO II
Gustavo
adentrou o manicômio para onde fora conduzido e, após recuperar os sentidos,
viu-se mais uma vez como que encarcerado pelo pai e a irmã julgando que o
colocavam naquele ambiente por razão às quais considerava de ordem
exclusivamente vingativa. Passava dias a bradar pelos corredores em verdadeira
desordem mental maldições contra o pai e a irmã. Isso resultava muitas vezes em
motivo para que o imobilizassem amarrado à uma cama de enfermo. Após medicação
adequada o rapaz tranquilizado principiava num diálogo mais amistoso tanto com
os enfermeiros, como os companheiros dentro do hospital.
Uma das
alucinações que mais assediava o jovem era de natureza megalomaníaca. Quando em
seus surtos, considerava-se ele um emissário ou talvez, melhor dizendo, um
arauto do juízo final. Não participava isso a ninguém, mas convencido pela
loucura guardava em seu íntimo a certeza de que Deus o designara como o
emissário do final dos tempos. Isso o detinha por horas a fio, quando era de
súbito tomado por surto ou crise, característica da doença, logo após
recuperar-se de seu estado de ausência da realidade, no que seria a biblioteca
do hospital. Onde munido de papel e lápis, redigia extensos manuscritos, que
seria mesmo interessante serem aqui transcritos. Mas por ora deixemos isso de
lado. Basta que se acrescente que Gustavo apesar de sua enfermidade era querido
não só pelo pai e a irmã, como por muitos amigos. Alguns até mesmo
desconhecedores do mal que o acometia.
CAPÍTULO III
Algo difícil de
definir, ou chegar a um diagnóstico preciso era a natureza da doença que
afetava Gustavo. Bem como grande parte da população mundial daquela época. A
citada epidemia a que me referi no início. Os psiquiatras e psicólogos se
debatiam em busca de conseguir estabelecer uma margem precisa no que seria de
natureza comportamental sadia ou doentia. Os primeiros recorriam a todos os
recursos medicamentosos, enquanto os segundos usavam de métodos para compreender o mais precisamente possível
o que se passava.
Enquanto
Gustavo recuperava-se no hospital, Carmem e seu pai alternavam visitas
constantes. Isso contribuía para que o rapaz apresentasse sintomas de melhora
com maior rapidez. Devo adiantar que teve inúmeras internações psiquiátricas
desde seus vinte e três anos até os quarenta praticamente.
Ainda se
falará muito do assunto no decorrer da narrativa. No momento o que importa, é
que o rapaz já cumpria seu terceiro mês de internação e estava prestes a ter
alta. O que alegrava o coração de Carmem e seu pai Augusto.
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO I
Era um domingo
chuvoso. Carmem e o pai vão rumo ao sanatório era dia de visitas no hospital.
Haveriam de conversar com o psiquiatra responsável por Gustavo, e inteirarem-se
da alta do rapaz que como foi dito já apresentava sinais de recuperação.
Próximo às treze horas adentrariam o pátio onde pacientes e seus familiares se
reuniam. Silenciosos ambos no carro, Augusto ao volante dirigia como que
embalado pelo curso dos demais veículos sem tanta impaciência como ocorria nos
demais dias da semana. Já há bom tempo não se circulava de carro nos dias
semanais com a mesma tranquilidade dos anos de outrora. Porém essa nostalgia de
longe não lhe atingia a alma. Antes o que o impelia a alterar por vezes um
pouco mais a velocidade do veículo, era só mesmo para não atrasar-se no horário
ajustado para adentrar no hospital.
Já Carmem seria impossível sondar os
pensamentos da pobre mulher, ainda amargurada com a separação e ausência já há
quase três meses do marido, trazia consigo no peito oprimido não só por este
fato, mas também pela situação do irmão adoecido, a certeza de uma dor
insondável.
No sanatório a
alegria de todos os pacientes era grande, em ressalva daqueles que internos há
poucos dias nem se quer direito à visita ainda dispunham. Bem, mas o que
importa é que nosso referido Gustavo, não se encontrava dentre estes e portanto
tagarelava alegre e as soltas na expectativa de rever o pai e a irmã com um
companheiro com quem travou amizade de nome Ingos.
- Ora Ingos meu velho eu em breve
estarei para além destes muros e na certa não me esquecerei de você. Vamos
combinar mesmo quem sabe um encontro lá fora. Gostaria de continuar nossas
conversas. Sabia que já deve ser a quarta estadia minha neste lugar? – Falava
alto Gustavo com ar alegre e jovial, entusiasmado com a expectativa de breve
estar de alta como lhe prometera seu médico.
- Fico contente
por você Gustavo, eu na certa gostaria de poder revê-lo, foram dias bons estes
que passamos juntos num intercâmbio filosófico nesse ambiente por vezes
extremamente desolador. Aproveitemos que você em breve talvez esteja partindo,
para tentarmos elucidar alguns pontos de vista em assuntos que compartilhamos e
que para mim permanecem em aberto.
Queria que falasse algo mais daquele
assunto que veio a tona no quarto daquele amigo. Sobre o Diabo... lembra-se?
- Ah sim...?! Já
sei a que se refere. Você fala a respeito do que afirmei. O Diabo tem poder de
nos conduzir a dilemas profundos... Talvez mais ele que o próprio Deus.
- Sim, achei
isso muito impressionante.
- Veja Ingos
meu amigo, o que lhe trouxe para esse lugar? Você conseguiria estabelecer mesmo
uma linha lógica e inabalável de raciocínio sobre isso? Seria você capaz de não
temer em seu interior, nos recônditos de sua alma, como se algo de natureza
sobrenatural pairasse por sobre sua cabeça... E isso de modo constante, de modo
como se tivesse tido um encontro com algo inexplicável que de certo modo só
você mesmo e mais ninguém sabe explicar? E me refiro ao fato de que se for
tentar colocar não só para mim aqui, mas principalmente para as demais pessoas
lá fora tudo que viveu, viu e ouviu, haveriam de no mínimo rirem-se de você.
Sim meu amigo, acredite esteja convicto de que servos do Diabo não somos, pois
em verdade eu lhe digo, o mal pior, o princípio destrutivo não se encontra em
nós. Ao contrário, está na massa lá fora. Naquela massa amorfa que se move como
um monstro desnorteado. A sociedade nos dias de hoje é carente de profetas que
com sua voz austera lhes admoeste, e lhes mostre o caminho. O Diabo vem e nos
inquieta a alma. Eu sei que se trata do Diabo porque acredito e tenho plena
convicção de que em seu princípio Destruidor sua ânsia na verdade é uma criação
para além da de Deus... Provar que seria capaz de algo superior ao que
estabeleceu o Criador.
Nisso anunciam
a chegada da família do primeiro paciente o que interrompe o diálogo dos dois
jovens, pois o felizardo Ingos foi chamado. Este lança as seguintes palavras a
Gustavo e apressado vai rumo ao pátio:
- Meu caro não
te esqueças como você mesmo deduziu de nossas conversas: O homem se aquático
fosse antes seria da natureza da Hidra. Já terrestre da natureza do abutre. Até
mais assim espero.
- Até !
Exclamou
Gustavo.
Quanto a
Olavo, este logo ao deixar a casa do sogro instalou-se por tempo indefinido em
um hotel. Sofria amargamente com a separação,
mas seu orgulho desmedido o impedia de pensar em uma possível reconciliação.
Questionou mesmo consigo o fato de que poderia ter se equivocado quanto ao que
presenciara entre Carmem e o médico, porém evitava pensar no assunto.
Importante
para ele era manter sua estabilidade financeira independente do sogro.
Esquecendo o quanto este lhe ajudou desde o casamento com sua filha. Conseguiu
um bom emprego num escritório imobiliário e tratou de trabalhar com afinco. Não
haveria de ser o dinheiro o motivo que o conduziria a humilhar-se perante a
esposa que deixara para trás e seu pai.
Não seria difícil
para um homem da natureza de Olavo superar com facilidade a separação conjugal.
Na verdade casara-se mais por conveniência que por amor. Portanto logo
encontrou espaço para se estabelecer novamente como homem descomprometido. O que
não sabia era que se tornaria difícil não se envolver com outra mulher em pouco
tempo. E logo nos primeiros dias em que se viu de regresso à vida de solteiro
já deu com a tentação a bater-lhe a porta dando livre curso a seus instintos.
Estimulado pela virilidade de um homem de 30
e poucos anos deu um impulso em sua vida financeira o que consequentemente
resultou num divórcio definitivo com a esposa. Fez novas amizades e logo estava
a ter novamente uma vida sexual ativa. Só não esperava em tão breve espaço de
tempo criar laços afetivos com outra mulher. Certeza é que se fosse possível a
Carmem saber com que tipo de pessoa se via envolvido o ex-marido, na certa
dar-se-ia por vingada.
A atual
pretendente de Olavo era uma jovem oportunista do tipo capaz de extorquir do
homem que se apossa tudo que é possível. E assim, podemos considerar que Olavo
abandonara uma esposa convencionalmente decente e uníra-se a uma prostituta.
Por sinal a decadência moral medrava a sociedade naqueles dias. E Olavo aceitou
resoluto os convites da atual companheira e
sem se dar conta transformou-se como ela num devasso. Jamais ponderou ou
pensou nas virtudes que deixara para trás entregue as traças na casa do sogro.
Conduzido
pela ideia de que agora encontrara seu verdadeiro amor, trilhou por caminhos os
quais jamais imaginara seria capaz de percorrer. De um possível burguês bem
comportado passou Olavo a um homem descomedido e amoral. E sob o signo da
irreverência deixou-se seduzir pelos prazeres que a ele se apresentavam um após
outro. O sexo, a bebida, as drogas passaram a ser algo trivial na vida daquele
homem que teve nas mãos tudo para jamais chegar a provar da marginalidade
social.
Carmem por sua vez, julgou consigo
que o mais acertado para ela era aceitar a proposta que recebeu do médico da
família assim que tomou este conhecimento do divórcio. Apaixonada que era por
Olavo acreditava encontrar aí uma forma de compensar a dor da separação.
Seu pai veio
a falecer de um mal que já trazia consigo há bom tempo, logo após a partida de
Olavo. O médico deu sorte e herdou toda a fortuna do velho. O único
inconveniente estava na pessoa do cunhado. Que vez por outra, saído da sanidade
criava verdadeiro inferno na vida do casal. Nobre alma a de Gustavo, talvez,
nobreza de alma fosse algo característicos aqueles que sofriam como ele no que
denominei epidemia. Pois na verdade aquela época era uma época de descontinuidade
de pensamento. E o que seria a possível liberdade de cada um, o que
caracterizava o indivíduo naqueles dias, era a facilidade com que a força
ilusória do capital e a proposta de consumo, garantia na aquisição das
mercadorias das vitrines a felicidade, a certeza de que se era um vencedor
naquela sociedade competitiva. O que enriquecia intelectualmente e até mesmo
ilusoriamente, pobres almas.
A
espiritualidade mesclava-se a propostas políticas de socorro aos pobres e
miseráveis como caminho para tranquilizar a consciência de todos. As pesquisas
mais tarde haveriam de corroborar que o índice de criminalidade e a incidência
de casos obscuros de natureza psicopata começou mesmo a alastrar-se mais pelo
mundo.
Centremo-nos no
comportamento dos dois cunhados, o adoecido Gustavo e o irreverente Olavo, e
teremos um parâmetro para aquilo que procurava preservar-se ileso e sadio
socialmente falando. Outro exemplo de comportamentos opostos e naturezas
distintas encontramos em Carmem e a mulher que herdou seu primeiro marido.
CAPÍTULO II
O sexo era produto de
merchandising explicita, a sexualidade de cada um era apregoada como algo a ser
respeitada.
Havia
debates sobre a questão da homossexualidade, no entanto, se duas pessoas do
mesmo sexo fossem pegas em qualquer intimidade em público, eram como sempre
foram, marginalizadas, apedrejadas. Pregava-se nos templos aos quatro cantos,
duas possibilidades para o transe em que se encontrava a humanidade, uma era
dos sinais dos tempos, o cumprimento das profecias do apocalipse, outra era um
otimismo de que valia a pena perseverar, lutar pelo resgate espiritual, que se
consumaria nas gerações futuras.
Nunca dantes na
história houve tantas igrejas de portas abertas, e tamanha diversidade de
doutrinas. Bem como não deixou a ciência de se ocupar em tentar corrigir ou
sanar os sintomas que, jorrava feito uma hemorragia, da própria terra, maculada
pelo homem. É verdade, a natureza também agonizava.
O interessante
dessa narrativa talvez esteja no comportamento daqueles que tomados pela doença
a que me referi, se consistiam no termômetro a acusar uma febre, que tornava
contundente a existência de um mal a ser combatido. Não eram alguns que
padeciam, era toda uma geração. Alguns só não se davam conta da contaminação
pelo mal da depressão. Nos meios intelectuais, hesitava-se por o dedo direto na
ferida. Aliás aqueles dias foram dias de carência intelectual, graças a Deus a
arte como sempre permanecia, a recolher, enxugar o suor daqueles que ardiam em
febre.
E Gustavo
serve de métrica, nesse mundo conturbado retratado até aqui, para o limite de
sofrimento de que é capaz suportar um ser humano. Elevado ao terceiro céu por
um dos aspectos de sua doença, vislumbrou por sobre as demais cabeças a
grandiosidade da mão do destino, o poder do que ele deixaria registrado em seus
escritos, como a mão divina, sagrada de Deus, a conter em sua soberana égide a
possibilidade de um cataclismo, de uma possível hecatombe.
A
peculiaridade de Gustavo se consistia na verdade no que ele definia como sua
possibilidade de mergulhar na loucura e regressar à tona ileso, inserido
novamente na realidade, compactuando da vida com o comum dos mortais.
Ora pincemos
aqui uma característica peculiar de nosso jovem herói. Ele foi capaz de
realizar o que poucos dos acometidos em grau elevado pela referida enfermidade,
conseguiram fazer. Soube até o final de seus dias manter o tino e o raciocínio
fixos onde sabia poderia estar seu resgate. Foi praticamente dado ao
egocentrismo, orgulhoso e presunçoso de si próprio até a morte, porém só quem
teve conhecimento dessa característica nele foram aqueles que ele assim
permitiu que tomassem conhecimento. Afortunado pelo lado financeiro, se houve
momentos em que provou da decadência moral de todos. Soube com inteligência
encontrar espaço para suas confissões. Encontrou confessores em alguns
especialistas do comportamento humano, aos quais revelou sintomas que o
auxiliaram a se conduzir até morte, apesar de todo seu padecimento, numa
atitude nobre, direi mesmo de brio, perante a tudo o que narramos aqui.
CAPÍTULO III
E seria mesmo
impossível atravessar aqueles dias sem que se fosse de alguma forma atingido
pela depressão. Aqueles que de certa forma não demonstravam sintomas da doença,
eram a seu modo indivíduos que se alienavam ou eximiam-se de aprofundar o
pensamento nos problemas que afetavam o planeta. Havia claro os ignorantes, os semianalfabetos,
ou ainda os que possuíam a simplicidade de espírito como atributo. Para esses
sem dúvida foi mais fácil o transcorrer daqueles dias. Ainda assim é certo que
apelava-se muito para a capacidade de cada um de crer e alimentar sonhos.
De certo modo
tudo indicava mesmo que tratava-se dos sinais dos tempos, das profecias a se
cumprirem. Porém, o que é homem perante as profecias senão o próprio
instrumento do cumprimento destas? E assim se a mão misteriosa de Deus parecia
pesar sobre a humanidade, percebo agora que escrevo que era algo que não
implicava em novidade histórica. O homem desde o momento que deixou as cavernas
e prosseguiu em sua evolução, logo começou a deixar seus registros sobre suas crenças nas divindades.
E o silêncio
naqueles dias era a arma de muitos. Não porque deixassem
de proferir suas ideias, seus pensamentos, mas antes pelo temor de
expressar o que realmente pensavam. O ateísmo pairava sobre a cabeça de algumas
cabeças e havia também fanatismo. Eram dias apocalípticos sem sombras de
dúvidas. E, como toda profecia que se cumpre, só mais tarde é que haveria de se
perceber a voz profética que bradou antecipadamente o alerta para o que então
passava-se no mundo.
Outra
forma de silêncio, e esta sim era a mais pesarosa e perversa de todas. Era o
daqueles que se afundavam no mal, na peste, na epidemia da depressão. Esse
silêncio sim era a expressão da época, a verdadeira fatalidade do momento, do
revés pelo qual atravessava a humanidade.
Retomando de onde interrompemos sobre o
nosso herói, ficou dito que empenhara-se Gustavo em estabelecer confessores. E
seus confessores foram de certa forma pessoas que se dispunham de forma
desprendida a ouvir aqueles que, afetados emocionalmente por qualquer motivo,
buscavam um ouvido que lhes fosse atento.
Gustavo inclusive foi além disso,
usando de especialistas no comportamento humano, investiu tempo e dinheiro em
tratamentos psicanalíticos. Sabedor no entanto em seu íntimo, que jamais se
recuperaria do mal que padecia. Não só pela natureza crônica de sua doença –
que poderia em outros ser até de caráter transitório - , mas antes sim porque
sabia consigo que jamais poderia renunciar ao que lhe foi concedido naquele céu
e inferno que vivia. Sentiu em si como dissemos, que fora designado como o
arauto do que se passava no mundo. Deveras suas alucinações, registradas por
ele a próprio punho, serviria se aqui narradas, como confirmação em certa
medida do que deveras ele via, ouvia, e se cumpria nos acontecimentos que se
desenrolavam pelos quatro cantos do mundo.
Como toda
profecia condiz em loucura, não é de espantar-se que no caso de Gustavo fosse
sua loucura de ordem profética. E surtia nele o efeito acalentador, no seu
sofrimento, a possibilidade de ser ele um eleito, um escolhido por Deus, para
deixar sobre a face da terra o alerta de que tudo aquilo que se passava no
mundo, nada mais era que anátemas divinos que se abatia sobre os homens. E sabia ele, e ia mais além, em sua convicção,
que não presenciaria o final
ou consumação dos tempos, o romper dos elos da corrente das eras. Não,
de forma alguma, quando o auge, o verdadeiro ápice do terror e da indubitável
destruição do mundo se consumasse, ele, o eleito, o escolhido não estaria aqui,
por sobre a terra em vida. Quem sabe talvez com o próprio Deus, em comunhão na
destra de seu poder, seria lá que estaria ele.
E havia
momentos em que o pobre rapaz entrava em comunhão com os demais, e simplesmente
passava-se o tempo, no transcorrer das datas, sem que ele próprio percebesse
que era em nada diverso de qualquer outro mortal. E se aplicava a alguma
ocupação; um trabalho, um hobbie, um lazer.
Provara
do vácuo mental a que está exposto o louco, e muitas vezes, temeroso de por aí
perder-se para sempre, evitava o que de certa forma já tinha sob seu domínio, a
saber, ingressar na loucura, de forma proposital, fugindo da possibilidade de
enfrentar a dor do mundo real.
E confrontou-se assim
aquele rapaz até atingir a idade madura, com o estigma da incompreensão
generalizada de seu meio social. E me
refiro aqui a incompreensão na forma metafórico do termo, pois o que se dava na
verdade, era a impossibilidade de cruzar Gustavo seu mundo – o de seus
devaneios e alucinações – com o mundo, para ele muitas vezes enfadonho, no qual
inseria-se as demais pessoas. Ora, considerando-se óbvio, que a realidade
compactuada vai de encontro a qualquer manifestação psíquica que implique em
desordená-la. Permanecia assim o rapaz como que numa marginalidade
incondicional. Agia e atuava de forma como que se nada se passasse consigo,
mantendo mesmo um convívio amistoso com muitos.
Encontrava em seus dias de juventude, naquilo que vivenciara antes que
qualquer mal lhe acometesse, como que um reduto em seu passado do qual extraia
forças para ir adiante na vida. Embora a perda de entes queridos naquela época
tenham o abalado muito, conseguiu de forma incontestável driblar com toda e
qualquer tristeza, com qualquer princípio de tédio ou topor. Antes dos seus 19
até pelo menos os 26 anos transcorreu-se uma fase de real maturidade, fase esta
em que permitia os acontecimentos em sua vida, fluírem de acordo com a
involuntariedade de sua vontade. Pois mais tarde, com o advento da doença,
queria ele de forma ávida tudo sob seu domínio, tudo sob seu controle, como se
na vida fosse possível ao homem determinar ou traçar as linhas do próprio
destino.
Na verdade nisso há que ficar
claro, nosso herói em muito decepcionou, deixou a desejar. Sua atitude
impertinente de querer sublevar-se contra a vida. Exigindo de si mesmo e dos
que lhe eram próximos algo de natureza inconsistente, como se fosse possível
edificar a vida em seus acontecimentos, da mesma forma como que se ergue um
castelo de cartas – belo até na aparência, porém de inegável fragilidade.
Sua
ruína, sua derrota fatal, estará bem aí, nesse aspecto sutil de sua
personalidade. Ainda que de certo modo tenha mesmo se aprofundado na busca de
lançar luz sobre os mistérios da existência humana. Da alma que se debruça
sobre si própria, e se dobra em vértice, querendo alcançar o ponto central da qual se abre em ângulo, obtuso terminou se
tornando o nosso herói.
CAPÍTULO IV
Era uma quinta-feira
ensolarada quando Olavo recebeu no
escritório atual em que ora trabalhava a notícia do falecimento de seu ex-sogro
o pai de Beatriz. Embora sentindo-se na desobrigação de cumprir qualquer
formalidade decidiu-se em comparecer ao velório e enterro do velho.
Já logo no velório ao se
deparar com Carmen e o atual marido, o médico da família, sentiu como se o
pânico do ciúme se reacendesse em seu íntimo. Fora desacompanhado. Sentia-se
mesmo pouco a vontade, uma vez que todos os conhecidos de certa forma evitavam
diálogo com ele. Todos na certa inteirados e indignados com sua atitude de
separação conjugal. Era o que pensava consigo próprio. Porém um dos amigos dele
e de Carmen, pessoa de seu círculo de convivência na época de casado, abordou-o
de forma inesperada:
- E então Olavo, como se dá agora a vida de
solteiro novamente? Na certa não permanece só.
- Na verdade não, tenho
uma companheira, mas não tenho mais intenção de vínculo de compromisso com
ninguém. – Com licença... – Acrescentou afastando-se do homem e achegando-se ao
ataúde onde se rodeavam os mais chagados para ouvir a homilia de um padre. Por
sinal o mesmo que realizara seu casamento anos atrás.
Sem apego a religião
alguma, ouviu Olavo as palavras do sacerdote, achando interessante e meio
cômica a colocação deste quando deu relevância ao caráter de integridade do
defunto, embora frequentador de raras missas.
Afastou-se então Olavo
do caixão, e de forma sorrateira, procurou a saída do velório e dirigindo-se ao
estacionamento, acendeu um cigarro e deu partida ao carro estacionado próximo à
saída. Respirando aliviado de ver-se livre daquela inoportuna situação.
Gustavo presente no
velório do pai, permaneceu a noite toda, cabisbaixo junto a companhia de um
outro rapaz, também de certa forma, em certo grau acometido pela doença da
época. Este porém, num segundo casamento e com uma filha, sofria somente de
forma acentuada de angústia e ansiedade, tendo tido princípios de um desajuste
mais sério, no primeiro casamento, antes de trair a esposa com a sua atual
mulher. Perdera com a traição, a possibilidade de uma vida rica e situação
financeira bem diversa a que se via sujeito no momento. O que era para ele
motivo de lamento e carregava como penitência o arrependimento do adultério.
Embora acostumados na
convivência, Gustavo e o citado rapaz poucas palavras trocavam um com o outro.
Conduzidos sempre pelo silêncio que se conflagrava entre ambos, oriundo da
natureza do mal que suportavam os dois, cada um a seu grau, cada um à sua
medida.
Deu-se o enterro e de
regresso ao lar, pensava Gustavo consigo, o que faria agora, com o que de forma
abrupta não contava tão cedo: o falecimento do pai e a herança, fortuna mesmo
que pela segunda vez lhe viria às mãos. A primeira vez que herdou foi com o
falecimento da mãe.
De regresso ao lar,
os três, Gustavo, Carmem e o médico, seu marido, sentaram-se à mesa para uma
rápida refeição. Só soltou algumas palavras o médico, dando-se logo conta do
infortúnio destas, quando do olhar trocado por Carmem e Gustavo, diante da
observação do médico do que seria feito
então em relação à fortuna do sogro.
Gustavo o primeiro a
retirar-se da mesa, encerrou-se em seu quarto imerso em suas divagações sobre
que rumo daria a sua vida agora. O médico logo em seguida alegando sentir-se
extenuado recolheu-se também. Na mesa da sala de jantar permaneceu Carmem,
talvez aquela que de forma mais condizente com a situação, imersa em seus
pensamentos, principiou a derramar lágrimas ainda não tardias, em memória ao
pai que a deixara. Fez do guardanapo seu próprio lenço, e passados alguns
momentos levantou-se e percorreu parte do andar inferior da casa, dirigindo-se
em seguida para o quarto do pai onde haveria de por fim a agonia que trazia na
alma, num pranto deveras dolorido, e não sem motivo.
Os pensamentos
conflitavam em sua cabeça. Pensava no irmão, no marido, e inclusive na solidão
que principiava a lhe inundar a alma.
Sentiu saudades de
Olavo, odiou por momentos a si própria por não ter caído a seus pés quando de
seu acesso de ciúmes, rogando que a perdoasse, consentindo num equívoco, que
poderia ter os salvado da separação conjugal.
Já passavam-se
alguns anos desde o ocorrido e Carmem agora, quando de repente se viu em frente
ao espelho, na penteadeira antiga no quarto dos pais que já não possuía, percebeu que envelhecera, que já era mulher
madura.
Resignada com o
torvelinho que lhe veio ao coração, recolheu-se também em busca de repousar da
vigília da noite anterior.
CAPÍTULO V
Gostaria mesmo de partir logo
para o desfecho de tudo isso. Porém acredito mesmo, fielmente, ser interessante
acrescentar mais alguns detalhes nessa narrativa. O possível leitor que me
acompanhou até agora, talvez indague de si da verdadeira e fatal abrangência,
daquilo que no início denominei epidemia, mal de um século, a depressão, uma
doença da alma. Direi somente, que se lida esta estória num tempo
consideravelmente próximo no qual encontra-se inserido o escritor, bastará que
se dê o mínimo de atenção ao comportamento generalizado, e o mal assim será
constatado. Por outro lado, se aquele que me lê, distante de mim se encontra no
tempo, talvez já se esteja minimizado socialmente o mal a que me refiro. De
qualquer forma, fica aqui essa narrativa, que tem por intuito caracterizar uma
parcela da sociedade de minha época. Parcela esta para mim sem dúvida alguma
adoecida na alma, psicologicamente afetada, alguns de forma mais sutil outros
de forma mais evidente.
Reatando pois a
narrativa, remeto o leitor ao nosso herói, Gustavo, que ficou a repousar em seu
quarto após a morte do pai.
Despertou este de um
sono induzido por medicações já de uso rotineiro. Principiava o anoitecer, e o
rapaz esfregando os olhos acendeu a luz do abajur próximo à sua cabeceira.
Olhou o ambiente a seu redor, respirou o tépido ar que adentrava pela janela do
quarto. Era verão. O suor escorria-lhe pela testa. Vazio de sentimentos
decidiu-se por tomar um banho e quem sabe ir em busca de um conhecido que há
muito não via. Desejava provar mais uma vez de uma droga que lhe sustentou por
curto tempo, numa ilusória promessa de que seu padecimento terminaria. Aliás,
novidade alguma há nessa atitude de Gustavo, ao menos no que concerne ao
caráter doentio que lhe delimita o comportamento. Muitos outros de forma
diversa da dele, encontraram numa possível droga, numa contumaz dependência, um
alívio para os sintomas depressivos.
Não se pode abordar o
mal ao qual me refiro em sua sintomatologia sem abrir-se um leque de possibilidades.
Um depressivo podia ir de uma simples
tristeza perene, ou uma contumaz ansiedade, até as raias de distúrbios de
implicações sérias como os surtos psicóticos dos quais padecia Gustavo. No
entanto, marginalizando toda essa gama de neuroses em desajuste, havia aqueles
que se entregavam de forma contumaz ao consumo de alguma droga. O que de certa
forma não deixou nosso herói de dar seus passos titubeantes nesse rumo. Provou
mesmo de inúmeras drogas, sem tornar-se dependente de nenhuma delas.
Nesta noite em particular estava decido a
ir em busca de uma. A ânsia de minimizar o desconforto que sentia era imensa e
portanto não relutou em desprezar o jantar com a irmã e o cunhado e partir rumo
a periferia da cidade em busca daquele camarada que na certa se disporia por
uma quantia razoável conceder-lhe a droga que desejava.
Quando adentrou o
portão do cortiço onde o rapaz habitava com outros inúmeros indivíduos, deu
logo de cara com Zezé, um travesti que muito já lhe havia assediado. Indagou se o tal do camarada
se encontrava, este por sua vez retrucou:
- Do que se trata
meu bem? Creio que ele não esteja aí não?
- Queria conseguir um pó com ele –
acrescentou Gustavo.
- Bem, está mesmo com sorte, posso lhe
conseguir sem problemas o que deseja. Tem certeza que não deseja nada mais? – e
riu dando-se conta do constrangimento já a se anunciar no rosto do outro.
- Olha na verdade estou meio apressado, se pode
conseguir o que quero tudo bem, do contrário volto outra hora.
Poucos momentos depois, já percorria Gustavo
em êxtase antecipado o caminho de regresso ao lar. Não via a hora de solitário
no quarto, esparramar o pó branco em carreiras e aspirá-lo rumo ao ambicionado
devaneio.
E essa contumaz maneira de fugir dos sintomas
que o acometia através de artifícios como esse – o da drogadição intermitente –
chegou a levar Gustavo a confundir reais alucinações que teve pelo estado de
alteração perceptiva causada por alucinógenos e sua reais experiências
alucinatórias fruto de seus surtos psicóticos.
E a fuga da
realidade então se consistia em ir rumo a dois alvos opostos em busca de alívio
para sua ansiedade e angústia: os surtos em si, e por outro lado a ingestão de
substâncias estranhas ao organismo.
Logo de início,
mesmo antes do advento em nosso herói de sua enfermidade, ousadamente expôs-se
ele ao risco de uma experiência com alucinógeno possante e perigoso, um por
poucos conhecido, um chá de lírio branco selvagem.
E aí estava, sempre
esteve seu calcanhar de Aquiles. Gustavo jamais cogitou consigo próprio, até
seu último instante, a possibilidade de que usava de subterfúgios pelos quais
fugir de si próprio, enquanto indivíduo, na certa complexo que era, porém
passível como qualquer ser humano de recorrer a uma mão realmente amiga. Alguém
em quem depositasse toda sua dor em chaga exposta, e conseguisse um retorno
dessa sua atitude, como um curativo para uma ferida.
Malgrado os ilários
momentos que o amargo brilho daquele pó branco, de textura sedosa e gélido às
narinas lhe proporcionava, logo em seguida estava ele no mesmo pé de seus
padecimentos. Isso era fato tão contundente que dele fez uso por curto espaço
de tempo de forma perene. O mesmo se dando com todos os demais componentes de
natureza das drogas ilícitas.
E agora ouso dar um
passo importante e arriscado na narrativa. Transcreverei aqui alguma coisa
escrita por Gustavo. Algo de seu próprio punho, dentre inúmeros manuscritos que
tive acesso e comigo os conservo.
“... Naqueles dias pode ele atravessar a ponte que o isolava da terra
paradisíaca à qual sabia estar predestinado. E com o vigor de uma fera indomada
avançou passo a passo revestido pelo fulgor de sua própria coragem em busca da
conquista de sua plenitude.
Dá-me balsamo para minha
dor,
Silencia meus gemidos meu
amor.
O desejo meu quebrou as
grades,
E sou filho não do demônio
rebelde,
Que te queria como
cárcere...
Pousa sobre minhas chagas
tua mão,
Alivia-me da agonia que se
encheu meu coração.
Ele sabia que seu destino era
maior que a necessidade sua de entregar-se escravo a um sentimento exacerbado.
E assim soube atravessar entre si próprio e o homem que estava destinado a ser
uma ponte. E preparou-se para vencer o abismo que o separava do que talvez
fosse a real imortalidade. E lá estava a eternidade, a anulação do tempo, e
assim como os sonhos é nossa estadia no que é céu e inferno, e desconhecemos
então do tempo, sabia ele que vencer a ponte era de uma grandeza provavelmente
maior que o medo da morte, ou mesmo que a própria morte.
Ouço teu brado homérico,
A atravessar o infinito
colérico.
Renuncia ao encanto
escravizador,
De tua própria beleza,
Fecha os olhos e concede a
escuridão,
Lugar de mostrar-te,
Uma cor que desconheces.
Silencia a tua voz e contem
tua ira,
Já não és tu, mas teu
espírito que delira.
No passado caminhara ele por
vastos desertos, e dissera a si mesmo: “até areia me bastaria. Ensina-me cacto
a ser tão forte como tu. Ensina-me como vencer o poder de um deserto. Como ser
grande ou maior, que toda uma vastidão de areia(*).
Acreditava ridiculamente que
a misericórdia estenderia sobre ele suas asas e o protegeria do que se opusesse
em seu caminho. Pensara que não há erro, e o mal é para ser superado, ser
vencido. E penara assim por longos dias, buscando sempre memória de milagres que
reascendessem sua própria crença.
Sabia que dor e sofrimento
não eram medidas de dignidade ou mesmo significasse nobreza de alma. Conhecia
do amor e ódio, da renúncia e do egoísmo, da vaidade e do desprendimento, e
aprendera que sua alma era o palco onde esses personagens antagônicos
abandonavam seu aspecto contraditório e dualista , e, par a par executavam uma
dança ritualística, cumprindo um ritual, harmonizando-se embalados pelo ritmo
que se desprendia do tanger de uma mão invisível nas cordas do coração. E assim
pôde ultrapassar a muralha que cedo sua inteligência e raciocínio erguera entre
ele enquanto animal-homem e o próprio espírito. E arriscava crer que o Espírito
é um; as almas representam criações manifestas, expressões múltiplas e infindáveis
do Espírito.
Ó anjo guardião de meus
dias,
Não me abandones nas noites
frias,
Quando vago desnorteado
Por trilhas ameaçadoras,
Não afastes de mim jamais
A mira protetora de teu
olhar,
Nem me abandones vida afora,
Vítima de meus bestiais
instintos.
Antes esteja sempre a
sombra
Protetora de tuas asas,
Pronta a ser refúgio para
minh’alma.
Quando esta, sedenta,
cansada e desfalecida,
Pelas batalhas que travou,
Queira abandonar a vida.
(*) Citação de autor desconhecido.
Conheceu certa vez um homem
que considerou sábio por suas palavras. E perguntou a este homem o que deveria
fazer para alcançar a santidade. Disse-lhe o sábio: “a santidade só a alcança
aquele que consegue renunciar a si próprio e, esquecido assim de si mesmo se
torna um com o Todo”. Pareceu-lhe um pouco infundadas estas palavras do sábio e
ele fez como se as não tivesse ouvido. E ao contrário do que lhe fora dito fez
de seus desejos íntimos roteiro para sua caminhada. Cego para a verdadeira
realização tropeçou assim caminho a fora, de satisfação em satisfação, numa
ânsia louca de reter os prazeres efêmeros que se achegavam a ele.
E sem dar-se conta de sua
loucura – insensatez daquele que preso aos sentidos não consegue enxergar a
própria bestialidade, envolveu-se em trevas densas.
E foram dias e dias de
subserviência insana aos sentidos. E a sensualidade a que cedia tornava-o cada
vez mais irreverente e já não podia mais conter a revolta – e voltou-se contra
ele mesmo a sua ira e quis a morte.
Penso que esse
escrito expresse de certa forma a complexidade da alma e porque não dizer, da
personalidade de nosso herói. Capaz de expor num manuscrito assim de forma
talvez indecente a nudez de si próprio.
EPÍLOGO
E decorrente do mal
daquela época, irmanado a ele, ou de forma mais ainda profunda justificar-se-ia
o que trágico ainda me proponho a narrar aqui como desfecho.
Olavo, homem que de
respeitável marido transfigurou-se como disse em libertino, certo dia, após
retirar-se do trabalho ao adentrar a casa onde vivia com a mulher a qual se
unira e que era por natureza, por ele mesmo sabido, de moral duvidosa,
encontra-a em seu leito com uma outra a se lanhar em carícias.
Tomado de ira pela
cena, corre a uma gaveta em seu guarda roupas, e pegando de um revolver que
possuía há tempos dá cabo da vida das duas. Friamente liga para a delegacia
mais próxima e solicita que venham até sua casa porque ocorrera um crime. Foi
preso portanto e mais tarde sentenciado.
A notícia do crime,
óbvio, foi divulgada pela imprensa e logo tanto Carmem como o médico, seu atual
marido, além de Gustavo tomam conhecimento do fato. Porém, a única implicação
ou envolvimento dos dois, foram terem servido de testemunhas pela defesa no
julgamento do réu.
Carmem, mais uma
vez sentiu-se abater e desta vez tornou-se um tanto quanto amargurada. Na
verdade essa fatalidade torno-a numa mulher frígida, que recorreu à análise,
com uma terapeuta que pouco pode fazer pela reconstrução de seu equilíbrio e
resgate de sua felicidade.
Já Gustavo, foi
completamente indiferente ao que se passou. Arrastava ele nessa época uma
psicanálise já há bom tempo. No entanto devido ao fato de esporadicamente
conjugar medicações psiquiátricas com álcool e drogas em geral, jamais
progredia rumo a ver-se livre de seu mal.
Certa manhã,
desperta nosso herói, após haver inalado várias carreiras de pó, sentindo-se
extenuado, o que não o impediu de, logo após o almoço, sair para uma caminhada
a esmo.
Tomado
repentinamente por um de seus surtos, isso depois de haver tomado algumas
cervejas perdeu-se pela cidade. Passou dois dias a vagar pelas ruas envolvido
em seu mundo artificial de homem adoecido.
Não fosse
sua irmã Carmem ter anunciado seu
desaparecimento e talvez o final de nosso herói tivesse outro desfecho.
Tornar-se-ia ele um desses possíveis viandantes de rua, incapazes de um crime
fatal, e que naquela época, devido à natureza implicante do nível de drogadição
de muitos, eram socorridos ainda que sem terem referência familiar definida. Em seu caso viveria um
céu-inferno, um tanto quanto característico do aqui chamei epidemia. Havendo
inclusive muitos que recorreram a esse rumo.
Com ele porém deu
ser mais uma vez conduzido à um dos manicômios em que já estivera vezes
anteriores. Cumprindo seus meses de reclusão com visitas de sua irmã e do
cunhado médico, a essa altura homem implicante e intratável para com a esposa,
que não lhe proporcionava prazer algum no leito conjugal.
Ao sair, mais uma
vez medicado e aparentemente senhor da razão, regressa ao lar de seu falecido
pai.
Gustavo sempre
sentia-se como ressuscitado ao readentrar seu lar logo após essas reclusões
provindas do que chamo aqui de surtos.
Poucos dias após
o regresso, fincou-se em sua mente a fatalidade da doença. Queria da morte, e
teria de ser morte certeira sem possibilidade de erro, cometida por suas
próprias mãos.
Carmem que pelo
irmão ainda guardava uma medida considerável de carinho no coração,
providenciou tudo como sempre: o quarto limpo e arejado, os remédios todos
providenciados e criteriosamente esclarecidos a ele dos horários, e, conformada
consigo própria, quase como que dando de ombros ao destino, pensou consigo
mesma: “algum dia isso há de ter um fim”.
Naquela mesma
noite, recém saído de um sanatório, o rapaz deixa a casa após todos
adormecerem, segue rumo ao cortiço onde conseguia sua droga predileta, e com
uma fúria indescritível, uma ânsia mesmo de saber-se livre daquela desilusão de
vida que na certa levava, regressa de volta ao lar, tranca-se no quarto,
despeja toda a quantidade do pó que conseguiu obter num copo de vodka e ingere
em alguns goles, esgotando em seguida quase que meia garrafa da bebida. Nesse
ínterim havia agrupado num único frasco vazio de remédio para azia cerca de uns
oitenta de seus comprimidos. Vai ao banheiro, e com um copo dágua engole-os
todos.
Na manhã
seguinte, a irmã bate à porta de seu quarto próximo à hora do almoço, não
havendo resposta, toma de uma segunda chave e ao destravar depara-se com o
corpo do irmão estendido já morto ao lado do leito.
Nosso herói
enfim sobrepujou assim, nesse imago, toda sua dor e todo seu sofrimento.
(*) Citação de Autor
desconhecido.
FIM



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